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18 de junho de 2017

✩ Campanha ❝O Voo de Diana❞✩ (4ª parte)

                                                                                                                                 | Wagner Williams Ávlis*

ΠΣApontamentos Meus

    Encaminhando-se para o final, o tratado falará de um momento atípico na canonicidade da Princesa Amazona: as alparcas do deus Hermes. Essas percatas permitiam a sua portadora mais do que voar, permitiam atravessar dimensões, mover-se à velocidade da luz. Em torno das alparcas revezaram protagonismos as personagens Diana Prince, Hipólita, Ártemis (a autora destaca aí a fase do brasileiro Mike Deodato no título da Mulher-Maravilha), e como o manto desta foi sucedido num ciclo que retornou à Diana. Em contraponto a essa fase, é apresentado o extremo-oposto, a fase de J. Michael Straczynski, uma Mulher-Maravilha desprovida de várias super-habilidades e que não voa, esquecida de quem é, de suas origens, de sua identidade. Um movimento de retorno ao voo é feito com as expectativas ainda indefinidas – à época – do reboot Os Novos 52.

✩ As Alparcas de Hermes

   
      Os amiguinhos da Comunidade Quadrinhos que puderam acompanhar em 1990 as histórias da heroína grega na revista DC 2000 (ed. Abril Jovem) vão se lembrar de que, nessa época, Pérez quis elevar o poder de voo de Diana às últimas consequências. Dessa vez, a guerreira não só voava por si mesma, como agora podia voar atravessando dimensões espaciais! Isso era possível não por que se tratava de mais uma mera invencionice pra personagem, mas pelo trabalho sério de tecer linearidade nas tramas (algo bastante ignorado em tempos passados). Nessa perspectiva, o voo dimensional de Diana não era uma habilidade nata dela (e que logo seria ignorada), mas um recurso complementar, temporário e emprestado pelo deus Hermes, o mensageiro. O que permitia o voo dimensional eram as alparcas de Hermes, um par de sandálias aladas que a divindade usa pra se locomover entre o plano sobrenatural e o natural, entre o espaço-tempo. Se não me falha a memória, acho que foi a última vez (antes do entrevero da invencionice do J.M. Strackzynki e Jim Lee) que vi a heroína sem usar as botas vermelhas pra dar lugar às alparcas, coisa que até achei bonitinha nela, mas bonita nela do que em Hermes (pois se viam seus pezinhos e panturrilhas). Nesse entremeio, as alparcas compunham o arsenal da amazona: laço da verdade (forjado por Hefesto do cinturão da Mãe Gaia), tiara-real (presente de Atena), braceletes de Atlas (presente de Atlas, forjado a partir dos restos do escudo de Zeus), escudo-égide (forjado do escudo de Zeus), espada amazona (forjada pelas themysciranas), armadura de Ártemis (doada pela deusa Ártemis, que, conforme Pérez, no traje da Mulher-Maravilha, o busto dourado de águia é na verdade apenas o peitoral dessa armadura), e finalmente as alparcas de Hermes. Eu gostei muito dessa fase, pois esse arsenal se uniu às habilidades divinais da personagem: superforça/ invulnerabilidade/ fator de cura (concedidas por Deméter, deusa da agricultura e da provisão), voo (concedido por Hermes, deus mensageiro), sabedoria (concedida por Atena, deusa da sabedoria e das artes), beleza (concedida por Afrodite, deusa do amor), sentidos aguçados (concedidos por Ártemis, deusa da caça). As alparcas de Hermes, no entanto, não entraram pro cânone do traje amazônico, uma vez que só foram utilizadas por Diana no arco de DC 2000. Apesar disso, na fase Loebs/Deodato (1995), as alparcas foram reaproveitadas pela amazona Ártemis, de Bana-Mighdall. Segundo o arco, temerosa com a visão de Menalippe de que a Mulher-Maravilha morreria, Hipólita forjou uma competição para escolher uma nova Mulher-Maravilha e evitar a profetizada morte da filha. Ártemis venceu, e, com isso, mais tarde, foi morta pelas mãos do Mago Branco. Durante toda a fase de Ártemis como Mulher-Maravilha as alparcas voadoras foram usadas por ela e incorporadas ao traje, já que esta não tinha o dom do voo. Ainda com Loebs/Deodato, após a morte de Ártemis pelo Mago Branco, os deuses, indignados pela malandragem da rainha das amazonas, amaldiçoaram o desejo de proteção de Hipólita, deixando Diana ser morta por Neron, e forçando Hipólita a ser (novamente) a Mulher-Maravilha, só que agora no tempo presente da Terra-1 (a nossa Terra). Durante esse período, Hipólita, como Mulher-Maravilha, também se utilizou das alparcas de Hermes pra poder voar. Morta, Diana foi assunta ao Olimpo na condição de “deusa da verdade”, mas, devido a ausência da mãe no trono de Themyscira (porque agora ela era a Mulher-Maravilha na Terra), os deuses permitiram a Diana retornar à vida pra reinar sobre as amazonas em Themyscira, e, mais adiante, retornar ao posto de Mulher-Maravilha. Assim se encerrou o uso das alparcas, com um caso único e atípico nas HQs: o manto de super-heroína passou de filha para a mãe, e não o contrário.
Rainha Hipólita, mãe de Diana Prince e líder das themysciranas, atuando como Mulher-Maravilha ao lado da SJA com uma diferença aparente: ela usa saias e não hotpants!

De cima para baixo: Ártemis, desenhada pelo brasileiríssimo Ed Benes. Amazona de Bana-Mighdall, Ártemis substituiu Diana como Mulher-Maravilha em 1995, e, como não tem o dom do voo, precisou usar as alparcas de Hermes para voar. Ártemis atuando como Mulher-Maravilha ao lado de Donna Troy, na arte do brasileiríssimo Mike Deodato. Pode-se notar as asinhas brancas das alparcas nos pés da nova Wonder.
✩ A Águia de Asas e Ninho Cortados

      Antes do reboot dos Novos 52 (2011), uma sombra de recontagens e retcons pairava sobre o UDC... Imersa nessa sombra e ainda convalescente das seguidas Crises (Crise de Identidade, Crise Infinita, Crise Final, e, logo à frente, 52 e Flashpoint) a Maravilhosa sofreu uma mudança drástica, contudo interessante, nas mãos de J. Michael Straczynski/Jim Lee. Estou falando da saga “Odisseia”, aquela onde Diana teve seu uniforme modificado pra um de, como disseram alguns no G+, “motoqueira”. A explicação editorial (do Jim Lee) pro novo look era a de que ele refletia a atual situação confusa, quebradiça, vacante e fragmentada da heroína que, sem uma identidade amazona, passou a viver à margem da sociedade, procurando respostas e a impor uma imagem mais justiceira, sombria e urbana. Em “Odisseia”, Diana está presa em uma realidade alternativa, sem lembrança de sua vida anterior. As amazonas foram atacadas por um misterioso grupo paramilitar quando Diana tinha 3 anos. Diante da derrota iminente, a rainha Hipólita dá ordem pra que as amazonas levem a criança Diana da Ilha Paraíso para o patriarcado. Após 20 anos da morte de Hipólita e das amazonas, os tais paramilitares ainda caçam as gregas sobreviventes e dispersas pelo mundo. Cansada de se esconder, Diana ignora os conselhos de suas tutoras e combate seus inimigos sem qualquer receio. Ela percebe que está presa numa realidade em que todo seu passado havia sido destruído por uma misteriosa entidade caçadora de mitos gregos, fazendo então com que todo o sonho de seu passado fosse mera lembrança quebradiça e dolorosa. Ela transforma a dor da descoberta em determinação para a jornada de vingança (a odisseia), numa trama clássica que remonta as jornadas dum herói grego, uma busca por autoconhecimento e restauração magistral feita por J.M. Straczynski, tamanha foi a sua sagacidade nesse arco. Nessa situação, o dom de voo da Mulher-Maravilha se perdeu; ela já não voava e não tinha certeza de sua identidade amazona, embora conservasse a superforça, os braceletes e o laço da verdade. Esse minimalismo de Diana provocou um turbilhão de críticas acidulantes, boicotes e até ameaças de fãs contra a DC, mas, excluindo a questão do uniforme, a história foi bem escrita e desenhada, apesar de ter dividido mordazmente opiniões. De lá pra cá, foi, até aqui, a única vez que a Mulher-Maravilha não voou depois de Crise nas Infinitas Terras.

Capa de Wonder Woman 600 (2010), onde se iniciou a saga “Odisseia”. Nessa saga, a Mulher-Maravilha não tem o dom de voo nem sabe de sua origem divina. Até então é o arco mais polêmico da personagem na Era Moderna, a começar pela onda de críticas que o novo visual provocou.
✩ Os Novos 52!

        O recente reboot Os Novos 52! empreendido pela DC veio, dentre outras coisas, acalmar o turbilhão arrastado pelas infindas Crises. Os leitores e a crítica mundial, em geral, têm recebido com boa aceitação o relaunch, que, inclusive, revaloriza personagens legados a um segundo escalão, como Falcões Negros, Edge, Aves de Rapina, Desafiador, Aquaman, Nuclear, Gavião Negro, etc. Desde Crise nas Infinitas Terras e de Crise Final, Os Novos 52 é a mais nova revolução nos quadrinhos. A Mulher-Maravilha aqui é um pouco da Mulher-Maravilha de George Pérez, de Phil Jimenez, de Greg Rucka, na arte admirável de Cliff Chiang, e na estonteante história de Brian Azzarello. A Princesa Amazona goza de seus 26 poderes mais elevados, sua origem divina está intacta (e até mais arrojada!), é pacifista, belíssima e voa! Não direi mais coisas pra não dar spoiler, pois os arcos dela em UDC e LJA continuam uma trama curiosa e empolgante mês a mês. Não tem como não se apaixonar. Grandes coisas estão por acontecer nesse novo cenário, e, sem dúvida, o maior ícone feminino do heroísmo, a Mulher-Maravilha, continuará livre e indelével pra alçar novos voos em novos horizontes, como tem sido desde seu primeiro salto, lá, nos idos de 1942...

Diana Prince, a Mulher-Maravilha, em seu visual rebotado para a fase Os Novos 52! E ela continua voando...
Não perca no próximo volume a conclusão...

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WAGNER WILLIAMS ÁVLIS – crítico literário da Academia Maceioense de Letras (reg. O.N.E. ​nº 243), professor de Língua Portuguesa, articulista, historiador do Homem-Morcego.

10 de junho de 2017

✩Campanha ❝O Voo de Diana❞✩ (3ª parte)

                                 
                                                                                                                                 Wagner Williams Ávlis*


ΠΣApontamentos Meus

    Neste ponto do trabalho encerra-se a temática da habilidade do voo da personagem antes da Era Moderna dos Quadrinhos (1986 à atualidade). Depois dessa parte tudo referir-se-á à Mulher-Maravilha que estamos familiarizados. Num tipo de interstício, somos apresentados a assuntos paralelos, como a "wonderfever" da década de 1970, um equivalente à batmania da década anterior. É nessa época que a Mulher-Maravilha chega ao Brasil e o conquista, primeiramente entre o público masculino, em seguida o público feminino, consolidando-se como a super-heroína mais aclamada da pop art, tão (ou até mais) popular quanto Helena de Troia, Scheherazade, Julieta de Shakespeare, Madame Bovary, Miss Marple, Barbie. O voo de Diana passou a ser real a partir de então. Por fim, o artigo esclarece que na maxissérie-divisor de águas "Crise nas Infinitas Terras" atuaram juntas duas Mulheres-Maravilhas, a do passado, oriunda da Terra-2, e a do presente, a da Terra-1. A da Terra-2 era Hipólita, rainha de Themyscira e mãe de Diana Prince, a da Terra-1 era a própria Diana Prince. Ressalto o belo trabalho da autora em nos revelar um George Pérez mais pesquisador do que mero roteirista da personagem, e foi nesse tripé "pesquisa-roteiro-desenho" que o artista novaiorquino se firmou como um dos nomes da revolução modernista da nona arte.

✩ Wonderfever: uma Mulher-Maravilha Pop nas Mídias

  A wonderfever  a “febre maravilhosa”  devido à fama da Mulher-Maravilha nos EUA e no auge do feminismo global, trouxe o estrelato da Princesa Amazona que virou ícone da força feminista. Com ele, artefatos, acessórios oficiais, fantasias, bandeiras, símbolos, antologias, a franquia animada The Superfriends (1973-1983), de Hanna Barbera, e o seriado Wonder Woman (1976- 1979), com Lynda Carter (se bem que já se havia produzido outras séries anteriores – e mal sucedidas – à da série com Lynda Carter); com essas duas mídias viriam mais um montante de artigos industrializados (os famosos bonecos da Kenner Superpowers, discos, máscaras, utensílios de casa, roupas, álbuns de figurinha, etc.). Tanto The Superfriends como Wonder Woman aborda a Mulher-Maravilha entre a Era de Prata e a Era de Bronze, revitalizada, divinal, com o traje clássico mais aquelas habilidades descritas por Robert Kanigher e Denny O'Neil, só que sem a tal da vulnerabilidade ao patriarcado e sem o voo de Jack C. Harris; em seu lugar, o bom e velho jato invisível do criador William Moulton Marston. Entretanto, há diferenças entre as duas franquias. A diferença que nos interessa é que em Wonder Woman de Lynda Carter (nas duas temporadas) a Mulher-Maravilha não voa, não autoplana nem se desloca no ar, apenas hiperssalta (como concebeu William Moulton Marston na Era de Ouro). É por isso que nós, leitores modernos, ao assistirmos ao seriado, estranhamos quando vemos nele Diana Prince dando altos pulos, sem flutuar, mas descer ao chão e firmar as botas no solo. Basicamente foi esse o centro do debate proposto no post do dcnauta GILSON DOMINGOS. A gente acha toscos aqueles pulos, mas era assim mesmo que ela fazia nos idos de seu início de carreira nos quadrinhos. Já em The Superfriends de Hanna Barbera, a coisa desanda de vez! Parece até que seus produtores absorveram as tendências incoerentes das HQs da era dourada, isso porque eles, a cada episódio, ora fazem Diana voar no jato invisível, ora voar por si mesma... É uma confusão só! Confusão essa citada no mesmo post por WAGNER WILLIAMS. Mas é relevante notar que a animação The Superfriends já incorporava o voo da personagem logo após o ano em que ela, nas HQs, passou mesmo a voar (c.1972), enquanto a telessérie Wonder Woman optou por uma Mulher-Maravilha rigorosamente tradicional e antiga.

Alguns itens licenciados da "wonderfever" nos anos 1970.
A famosa boneca Mulher-Maravilha da coleção Superpowers Collection (da Kenner) referente ao sucesso da última temporada de The Superfriends. Febre no Brasil nos anos 1980, a animação e os bonecos ficaram conhecidos como “Os Superamigos”, fazendo a alegria de meninos e meninas.
✩ Voo Durante "Crise nas Infinitas Terras"
Cena da morte de Diana Prince em "Crise nas Infinitas Terras", que deu fim à Era de Bronze dos Quadrinhos.
      Como mencionaram acertadamente JITAP PEREIRA, WAGNER WILLIAMS, GILSON DOMINGOS, a Princesa Amazona já voava durante os eventos de Crise nas Infinitas Terras (1985). Isso só foi possível graças a atitude inteligente de Marv Wolffman e George Pérez, que trouxeram à tona os poderes máximos de cada herói pra tentar conter a ameaça transdimensional do vilão Anti-Monitor. WAGNER WILLIAMS foi pertinente no comentário ao salientar que na maxissérie existiram 2 Wonder Woman’s que voavam: a da Terra-2, mãe de Fúria, e a da Terra-1, Diana Prince, irmã de Donna Troy. A da Terra-2 era a Mulher-Maravilha da Era de Ouro que não voava, desenhada mais velha, pintada de cabelos acinzentados e com chavões saudosistas que evocavam os deuses; adiante foi revelado ser ela Hipólita, a mãe de Diana Prince. A da Terra-1 é Diana Prince, prototipificada pra reformulação de George Pérez pra Era Moderna um ano antes, que já voava, desenhada mais jovem, pintada de cabelos pretos e sem os chavões gregos. Foi essa Wonder que morreu em Crise (na verdade, foi retroagida no tempo, até não mais existir), e foi a partir desse ponto-zero que a reformulação da heroína se deu. Mas o fato é que as duas Wonder’s em Crise voavam. A explicação pra isso é que a Wonder-2 (Hipólita) é a mesma Wonder de quem até agora eu tenho falado aqui, desde sua criação (1941) até antes da maxissérie, e que portanto já tinha passado a voar nos anos 1970. A Wonder-1 (Diana) é a Wonder pré-reformada de George Pérez, que, por bênção dos deuses, nasceu com o dom de voo.

      IONA AKIYE SHIMIZU plausivelmente questionou, em algum lugar do post, se com o retcon da Hipólita como sendo a Mulher-Maravilha pré-Crise seria anulado tudo o que vimos e sabíamos da Wonder Woman Diana até a Era Moderna; ou seja, que os quadrinhos, os pôsteres, a publicidade, a wonderfever, os desenhos animados, o seriado, as bonecas, tudo aquilo referente à Mulher-Maravilha produzido antes de Crise nas Infinitas Terras não deveríamos considerar como sendo referentes à Diana Prince, mas à sua mãe Hipólita, já que, conforme as HQs, era Hipólita mesmo quem estava ali como Mulher-Maravilha. A resposta a essa questão é não!! Não devemos anular o conhecimento e a noção acumulados sobre Diana Prince como sendo a Mulher-Maravilha no pré-Crise em outras mídias. Diana é canonicamente a eterna Mulher-Maravilha! O que nos dá o alívio de não a anularmos historicamente é que a cronologia e a continuidade das HQs não se aplicam a outras mídias, porque cada mídia é autônoma, com licença de “desobedecer” aos cânones quadrinísticos e compor seu próprio cânone. Então, quando virmos Lynda Carter atuando como Wonder, não devemos dizer que ali é Hipólita, mas Diana; quando virmos a Wonder dos Superamigos, saibamos que ali é Diana Prince, e não a Rainha Hipólita como Mulher-Maravilha. A capa da revista Ms. que deu o "boom" pra revitalização da heroína não mostra Hipólita; mostra Diana. Toda a arte com a Wonder fora das HQs de época será sempre Diana, nunca Hipólita, pois, volto a afirmar: a cronologia e a continuidade das HQs não se aplicam obrigatoriamente a outras mídias. 

✩ Era Moderna para a Mulher-Maravilha

    Crise nas Infinitas Terras encerrou a Era de Bronze dos Quadrinhos. Watchmen, de Allan Moore, e O Cavaleiro das Trevas, de Frank Miller, iniciavam a Era Moderna dos Quadrinhos, e essa Era, inevitavelmente, tinha de atingir o maior ícone feminino das HQs: a Mulher-Maravilha, agora de George Pérez, pra alguns o 2º William Moulton Marston na DC. Durante este período, a narrativa das histórias e a caracterização de personagens, tanto da Marvel quanto da DC, acabou se tornando algo mais complexo, elaborado, sombrio, opressivo, violento, primando mais pelo realismo e pelos tons escuros, colocando os super-seres no cotidiano das pessoas e na esteira da globalização. A reformulação das origens e narrações de heróis possibilitou preencher lacunas, remendar furos de continuidade, acabar com incoerências, inovar onde era “proibido”. George Pérez fez isso com a mitologia da Maravilhosa, recontando sua origem, sua personalidade, atuação e psicologia, incluindo aí, pra sempre, a habilidade de voo da Mulher-Maravilha que hoje conhecemos. Por isso, na minha brasileiríssima opinião, Pérez é melhor que Marston, e é o melhor roteirista que a Wonder já teve. Mas admito que George Pérez não foi o autor autêntico do poder de voo da amazona. O autor mesmo, como eu disse, foi Jack C. Harris nos anos 1970. Todavia, Pérez tem seu mérito reconhecido mundialmente pelo fato de, no afã de sua pesquisa na antologia de Diana Prince, dentre outras tantas coisas, ter verificado incoerências e oscilações relativas ao seu voo, mesmo anos depois de Harris ter estabelecido o voo (um exemplo concreto disso foi o citado crossover entre Mulher-Maravilha e Homem-Animal, onde Diana já voava, mas que o escritor Gerry Conway, nessa história, retrocedeu ao deslocamento suspenso). Pérez notou que, durante o período da novidade do voo da Wonder, oscilar entre o voo e o não voo dela era a coisa mais comum entre roteiristas dos anos 70-80, e que, penso eu, ajudou a confundir a cabeça de gerações em relação a isso. Ele viu que no UDC a questão do voo de Diana, no fundo, nunca ficou definida. Então, como mestre que é Pérez, pesquisando toda essa trajetória instável da personagem, corrigiu as incoerências e confusões, regularizando – e também inovando, criando – de vez as características da amazona (consultar Biblioteca DC Mulher-Maravilha: Deuses & Mortais, ed. Panini), anexos, págs. 177-178). Seu postulado irrevogável era: Diana Prince é uma semideusa criada e não gerada, abençoada pelos deuses, mulher guerreira de sangue, princesa de corpo, divina de alma. Ela portanto é sobre-humana, imortal, superforte e voa. A partir daí, ficou definido e estabelecido como norma editorial da DC Comics que a Mulher-Maravilha natural e invariavelmente voa por conta própria.

Não perca a parte 4...
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WAGNER WILLIAMS ÁVLIS – crítico literário da Academia Maceioense de Letras (reg. O.N.E. ​nº 243), professor de Língua Portuguesa, articulista, historiador do Homem-Morcego.

4 de junho de 2017

O filme da Mulher Maravilha Resenha com SPOILER



 ############# ALERTA DE SPOILER ###############

O filme da Mulher Maravilha é um filme três em um, ele é um filme de guerra, mitologia e de herói, a história é muito bem contada, as explicações são apresentadas de uma forma belíssima de encher os olhos, um filme para toda família, os personagens são muito bem apresentados, a construção da heroína e dos personagens são muito bem firmadas, e o respeito e concretização é feito de uma forma que só a DC sabe fazer, uma marca muito forte da empresa é umas das coisas que eu mais admiro nela e com certeza muitos admiram. Como todos sabem esse filme da Mulher Maravilha é de origem, e sua inspiração veio do universo conhecido como “Os Novos 52”de 2011 à meados de 2015, em que ela foi feita do caso de Zeus e a rainha Hipólita vivida pela atriz Connie Nielsen, 
nas outras versões de origem da Mulher Maravilha Hipólita a esculpiu no barro e rogou a Zeus que desse a vida, e foi atendida, no filme Hipólita conta essa versão a Diana mais como um conto de fadas, o que depois é revelado que ela teve um caso com Zeus, outra coisa com que eu me preocupava era qual origem de Diana eles iriam usar, e eles optaram pelo o do Os Novos 52 como eu expliquei no começo desse texto, uma coisa curiosa  foi observando os comentários das  pessoas sobre o filme, achei intrigante o fato de ninguém comentar sobre as amazonas não se referir a Hera a deusa que elas mais veneram nos quadrinhos e nas animações da DC, eu acho que eles o que aconteceu em Os Novos 52, em que Hera se volta contra as amazonas por conta desse caso de Hipólita com Zeus, claro isso é uma teoria minha. Vendo as críticas de canais no YouTube que eu acompanho e de amigos que viram o filme, percebi que todos estavam esperando muito desse filme, ele ser ou não ser a “salvação” dos filmes do Universo Estendido da DC, eu não estava preocupado com isso e sim, com o primeiro filme com um heroína como  protagonista em seu próprio filme, e a maior heroína de todas a MULHER MARAVILHA, 

e a primeira diretora mulher, a Patty Jenkins que está de parabéns o filme é maravilhoso, e se eu fosse comparar a diretora com os diretores da Marvel eu comparava com os irmão russos e o filme da Mulher Maravilha com algum filme da Marvel seria o Capitão América, e não é por causa do escudo, e sim por ser um filme muito bom de origem e de guerra, e a diretora mostrou que sabe fazer filme de guerra assim como os irmão russos, e espero um segundo filme da Mulher Maravilha tão bom quanto o Soldado Invernal ou melhor, isso só o tempo vai dizer. Ele conta com cenas tiradas de outras mídias da DC, como a série de TV de 1975 da Mulher Maravilha, que é a despedida de Diana e Hipólita e a cena que Diana fica experimentando roupas, e uma em que ela toma sorvete e diz pro vendedor: Você deve se orgulhar muito do seu feito, essa cena é de uma animação chamada de Liga da Justiça Guerra 






1 de junho de 2017

✩Campanha ❝O Voo de Diana❞✩ (2ª parte)

                                                                                                                                 Wagner Williams Ávlis*


ΠΣApontamentos Meus

    Nesse estágio do tratado a autora põe em xeque uma questão totalmente desprezada pelas antologias da DC, um assunto da mitologia da Mulher-Maravilha a que ela chama de "paradoxo Donna-Troy". Fala ainda da polêmica envolvendo a revista feminista Ms. Magazine nos anos 1970, estopim para a DC revitalizar a heroína, resultando no seriado com Lynda Carter e na popularidade brasileira com as publicações da editora EBAL; o retcon que deu o poder de voo e o crossover com o Homem-Animal.


 O Paradoxo-Donna Troy



Donna-Troy adulta
    Aqui vem um problema teórico que a DC, revistas, fãnzaços, euzinha, nem ninguém, conseguiu teorizar. A 1ª Wondergirl (Moça-Maravilha), Donna Troy, sidekick da Mulher-Maravilha e integrante dos Novos Titãs, é a irmã (adotiva) da própria Mulher-Maravilha, Diana Prince, portanto, filhas da rainha Hipólita. Beleza! Agora um paradoxo: se Donna e Diana são irmãs amazonas, oriundas de Themyscira, de mesma natureza divina e de mesma força (exceto em intensidade, já que Diana lhe é superior), então por que no Pré-Crise Donna Troy voa e Diana não? Querem que eu complique mais? E se eu disser a vocês que a 1ª Wondergirl (Moça-Maravilha), ela mesma, a Donna Troy, é a própria Mulher-Maravilha, a Diana Prince, só que jovenzinha em seu passado? E aí gurizada?? A Diana Prince, quando jovem, voava, mas quando ficou adulta deixou de voar? Sim, é isso mesmo! Robert Kanigher, nos idos de 1950, inspirado no Superboy de Smallville (o Superman Clark Kent) cria, pro título da Mulher-Maravilha, as histórias de Hipólita, Moça-Maravilha, Bebê Maravilha (a “família maravilha”) para mostrar como era a Diana em diferentes épocas de sua história com sua mãe. Um arco chamado Impossible Stories ("Contos Impossíveis") mostra o que aconteceria se as quatro maravilhosas, Mulher-Maravilha adulta, Moça, Bebê e Rainha (a sua mãe), existissem no mesmo lugar e época. A bagaça ocorre quando um novo escritor, Bob Haney, pega os personagens dos "Contos Impossíveis" e, de jeito equivocado, os interpreta como personagens completamente diferentes e separados. O que atrapalhou mais ainda foi um erro de transliteração: o nome “Diana”, que é de fato o invariável nome da Mulher-Maravilha adolescente (na condição de Wondergirl), foi sendo transliterado em vez de “Diana” para “Donna” (pela aquela mesma imperícia editorial de que falei no começo). Haney comete erros na continuidade da história e faz com que a Mulher-Maravilha seja a sua própria amiga, na qualidade de Moça-Maravilha, como uma pessoa diferente, independente. Ele continua escrevendo sobre a Moça-Maravilha “Donna” na revista recém-fundada Teens Titans (“Turma Titã”). Os esclarecimentos da continuidade e de Donna Troy como uma personagem singular (que não é mais Diana Prince jovem) só foram feitos com Crise nas Infinitas Terras. Mas o paradoxo ficou: Diana Prince, quando jovem, voava, mas quando ficou adulta, deixou de voar! E, se por outro lado, Donna e Diana são irmãs amazonas de Themyscira, por que Donna Troy voava e Diana Prince não?


 Finalmente, o Voo


    A matéria de cunho feminista e de escala internacional de Gloria Steinem na revista Ms. Magazine (jul./1972) trazia como matéria de capa a Mulher-Maravilha (“Wonder Woman Revisited”), criticando as mudanças promovidas na heroína após 25 edições (como disse, no fim dos anos 1960, Diana Prince perdeu seus dotes divinos e virou uma agente secreta), rotulando a DC Comics de machista e o editorial da Maravilhosa de retrógrado. Com a polêmica e as atenções do mundo em torno da heroína, a DC viu aí a oportunidade de virar o jogo, repontencializar a personagem, dar um up nas vendas; rapidamente restauraram a Mulher-Maravilha em seu traje e poderes clássicos, e a Wonder tradicional voltava a ser publicada, dessa vez editada por uma mulher, Dorothy Woolfalk. Foi esse up artístico-editorial da década de 1970 que deu a habilidade de voo à princesa guerreira, isto é, a Mulher-Maravilha foi potencializada em seu caráter feminista e divinal, passando a voar, inclusive, antes mesmo de Crise nas Infinitas Terras, como acertou GILSON DOMINGOS. Pra justificar essa nova habilidade do voo, o roteirista Jack C. Harris usou de retcon, explicando que só nessa época foi que Diana Prince “descobriu” essa capacidade de voar, aperfeiçoando ela aos poucos a partir da autoplanagem e do deslocamento suspenso em correntes de ar (que eu já mencionei), num exercício parecido ao do Superboy do seriado Smallville, como presumiu a amiga IONA AKIYE SHIMIZU. Todavia, o recurso do voo não se fixou como regra editorial, e por isso volta e meia os artistas ora o utilizavam, ora o ignoravam, tornando algo irregular. Foi nessa época que a fama da amazona clássica alcançou o estrelato no seriado com Lynda Carter, e, no Brasil, nas editoras Orbis e EBAL, embora a última já publicasse a versão agente secreta dos findos anos 60, com – pasmem! – 4 anos de atraso. Várias capas originais estadunidenses de Wonder Woman vol.#1, 230-276 (que a EBAL reproduzia fiel por aqui) passaram a mostrar a Mulher-Maravilha voando por si mesma, sem o auxílio do jato invisível. A EBAL, ao atualizar-se, acompanhou e publicou no Brasil, com fidelidade, toda essa revitalização da Mulher-Maravilha de 1977-1983, até a ed. Abril adquirir os direitos de publicação.

✩ Um Crossover “Animal!”: Mulher-Maravilha & Homem-Animal
    
     
      O amigo GILSON DOMINGOS citou um encontro na pré-Crise entre Wonder Woman e Animalman onde a Maravilhosa aparece voando; e ele está quase correto! “Quase” porque, apesar de nessa época (1980) ela já voar conforme o retcon de Jack C. Harris, nessa edição, o roteirista Gerry Conway, por motivo desconhecido, não faz a personagem voar e lança mão do deslocamento suspenso. Esse encontro foi publicado aqui em duas edições pela EBAL em 1981 no título mensal de Mulher-Maravilha #39-40, republicado pela Abril em 1984 no título Heróis em Ação #34-35 (que nos EUA correspondiam a Wonder Woman #267-268, de 1980). Ali foi revelada uma nova habilidade integrante dessa revitalização da themyscirana: a telepatia animalesca dada pela deusa Ártemis, que, com ela, Diana podia dispor de qualquer animal pela mente, uma habilidade semelhante à do Homem-Animal que fez o jogo certeiro entre telepatias animais. De minhas leituras, que eu saiba, Buddy Baker e Diana Prince se encontraram só essa vez. Em 1990 (no pós-Crise), a linha DC 2000 (ed. Abril) reunia histórias desses dois personagens na mesma revista, contudo, sem crossover entre eles. Naquela década, Diana, pela reformulação após "Crise", naturalmente já voava.

Capas do crossover entre Mulher-Maravilha e Homem-Animal nos EUA e no Brasil: “Wonder Woman” 267-268 de (1980), “Mulher-Maravilha” 39-40 (1981, ed. EBAL), “Heróis em Ação” 34-35 (1984, ed. Abril Jovem), e o selo “DC 2000” (1990, ed. Abril Jovem).

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WAGNER WILLIAMS ÁVLIS – crítico literário da Academia Maceioense de Letras (reg. O.N.E. ​nº 243), professor de Língua Portuguesa, articulista, historiador do Homem-Morcego.

24 de maio de 2017

✩ Campanha ❝O Voo de Diana❞ ✩ (1ª parte)

                                                                                                                                 Wagner Williams Ávlis*

 Foi para toda a Comunidade g+Quadrinhos que este tratado
 foi dedicado no ano de sua publicação (2013). 
ΠΣApontamentos Meus

     Nessa parte, o tratado discorre sobre os hiper-saltos da Princesa Amazona, a habilidade que precedeu seu voo e que de certo modo fora uma tácita reprodução da habilidade que tinha o Superman na mesma década, os anos 1940. Discorre ainda a incongruência entre o traje da guerreira grega (muito mais american way) e a tradição helênica das roupas femininas. Destaque para uma teoria da autora que buscou explicar outra incongruência: a existência duma aeronave invisível num mundo isolado da tecnologia patriarcal e que era a símile das eras clássicas da Grécia antiga. Por fim é arrolada uma galeria de capas onde se prenunciava a possibilidade de um voo sem o jato invisível, com as habilidades gradativas chamadas "deslocamento suspenso" e "autoplanagem".


✩ Mulher-Maravilha e Seus Hiperssaltos de Início de Carreira

        William Moulton Marston não elaborou a Wonder pra voar como uma deusa – e arrisco dizer mais, tampouco pra refletir o modo de vida guerreira duma amazona grega! Apesar de não ser algo oficial, nós, leitoras veteranas e conservadoras, na experiência de leitura, postulamos que o aparato mítico-grego da Maravilhosa esteve vinculado à Ilha Paraíso Themyscira e deixado lá pra trás quando da saída de Diana pro mundo exterior patriarcal. Seu modo de vida amazônico deu lugar a uma simples idiossincrasia grega (expressa nas frases de efeito que aludem aos deuses). Por isso, em seu começo, não a vemos prestar culto a suas divindades, não a vemos treinando marcialidade fora de Themyscira, não a vemos conservando suas tradições e ritos, e a vemos permitir-se quebrar o voto de abstinência de sua confraria (ao noivar com Steve Trevor) e absorver, tímida, o modo americano de viver (por força disso, o nome “Mulher-Maravilha” mais suas traduções equívocas de “Miss América” ou “Supermulher” nada aludíveis à Grécia). O uniforme e a aeronave da heroína são pouco gregos ou mitológicos, pois na trama eles agem como elementos politizados: o uniforme tem cores e símbolos da nação estrangeira, e a aeronave é um fator de comparação com a aeronave de Steve Trevor, a fim de ser vista como representante duma civilização de igual tecnologia. Não era que Marston queria desprezar a fortuna grega (ele lia bastante os clássicos); apenas focar sua defesa no feminismo, não importando de qual procedência viera. Entretanto, a Mulher-Maravilha não era uma mulher comum; era uma semideusa “(...) linda como Afrodite, sábia como Atena, tão forte quanto Hércules e tão veloz quanto Mercúrio, vinda da Ilha Paraíso, onde as amazonas governam soberanas…” (Sensation Comics #01, 1942 - introd.), e por isso ela saltava, sobre-humanamente, a grandes léguas ou alturas. Tal trunfo era, na realidade, pra rivalizar com Superman de Jerry Siegel e Joe Shuster, que, à época, não voava também, só hiperssaltava (vocês sabiam disso, gente?). Ainda assim, Marston, desintencionado, abriu margens pra confusão do voo na lambança que futuros escritores, junto dum mercado imaturo, iriam aprontar.


✩ O Papel do Jato Invisível: Uma Teoria Minha

         O jatinho invisível de Diana é um resultado daquela imperícia das editoras emergentes na Era de Ouro. William Moulton Marston não se prendeu a explicá-lo, e, por consequência, o jato seguiu enigmático até o pós-Crise nas Infinitas Terras. Simplesmente ele não tem explicação definida ou razão de origem antes disso. Mas eu, através de 23 anos de leitura e coleção, teorizei algo referente e que encontra apoio em observações de roteiros, guia de quadrinhos, sites estrangeiros e fóruns de debate entre fãs. Não é consenso, mas é algo relativamente reconhecido. O jato invisível na pré-Crise é uma encarnação essencial de Pégaso, o unicórnio voador, espólio de guerra grego, e, portanto, item de Themyscira, e não o tal metal amazonium. O jato, diferente de qualquer outro, pode atravessar a atmosfera terrestre até o espaço sideral. Ele é invisível de modo relativo, pois pra Diana e pras demais amazonas ele é visível (alguém aí já viu Diana “errar” seu embarque? Ou as themysciranas não perceberem seu sobrevoo?); já pros mortais e outros seres o veículo é invisível. Se fosse puro metal geofísico bruto, o jato não atenderia ao comando de voz ou à telepatia de Diana, e careceria de combustível; isso não acontece porque o jato é orgânico, vívido, místico, é a essência mítica de Pegasus adestrado pras petições das amazonas, e, por isso mesmo, ele é destrutível. Não vou aqui dissertar sobre isso agora, mas se quiserem, noutra oportunidade, poderei fazê-lo, citando a fundamentação e as fontes. Quem quiser se antecipar em algumas poucas coisitas, pesquise sobre Sensation Comics #1 (1942), Wonder Woman #32-36 (1949), #43 (1950). Podem conferir algum fundamento num compacto da Mundo dos Super-Heróis#9 (“Mulher-Maravilha de A-Z”. Ed. Europa). O jato, a princípio, como bem citou VINÍCIUS MOIZINHO, servia pra atender a necessidade de voo da amazona, já que ela apenas hiperssaltava. 

Mais tarde, quando Diana passou a planar e a se deslocar em “correntes de ar”, o jato serviu de locomoção e bagageiro pra grandes distâncias. Na fase pós-Crise (John Byrne), o jato não é mais a essência de Pegasus; é um presente elemental transmórfico alienígena chamado “disco lansinar”, da raça lansinariana, e que pode assumir qualquer forma física – e aí o avião –, chegando até mesmo a se transformar, certa vez, numa redoma flutuante chamada “Domo Maravilha” (não publicada no Brasil, mas com rápidas aparições em DC 2000 #6 , 1990, ed. Abril; Superman & Batman # 5, “Ondas”, 2005, ed. Panini). Nesse último estágio, o jato tem mera função saudosista e ilustrativa, pois que aqui a heroína voa e pode transportar cargas em seu voo. Ficou mais libertário assim, concordam? Na atual série “Os Novos 52!”, o jato invisível nunca pertenceu a Mulher-Maravilha. Em vez disso, ele foi projetado pelo departamento de segurança nacional dos EUA, “ARGUS”, e serve como principal forma de transporte para Amanda Waller e Steve Trevor.

✩ A Mulher-Maravilha Dá Indícios de Que Pode Voar…

         Robert Kanigher e Denny O'Neil assumiram a responsabilidade de escrever as histórias após a morte de Marston em 1950 (este falece em 47). E, como eu disse no começo, na tentativa incontida de aperfeiçoarem a semideusa, vieram as lambanças! Um retcon que serviria mais tarde pra fundamentar a teoria da vulnerabilidade ao patriarcado, tiara-bumerangue, braceletes walk-talk, brincos que a permitiam respirar em ambientes no espaço, telepatia com animais (dada pela deusa da caça, Ártemis, e recuperada em Crise Infinita nos animais guiados por Diana a atacarem Superman manipulado por Maxwell Lord!), e, por fim, o deslocamento suspenso nas correntes de ar e a autoplanagem. Sim, galerinha, agora a Wonder podia dar hiperssaltos e com eles flutuar num ponto fixo ou se deslocar pra vários pontos através da corrente de ar. Sem essas correntes ela não planava, e mesmo assim dependia de sua aeronave, pois ainda não voava por si mesma. A ideia veio de O'Neil, que queria acrescentar mais tensão às cenas de ação que envolvessem confrontos aéreos ou espaciais mais a possibilidade (e a tensão) de Diana cair, se esborrachar no chão e morrer (no caso de falta de correntes de ar ou atraso do jato). Nessa época, a teoria da vulnerabilidade ao patriarcado rezava que Diana Prince perdeu a sua imortalidade amazônica quando deixou a ilha de Themyscira, por isso, a tensão na chance de ela morrer em queda-livre. A autoplanagem e o deslocamento suspenso durariam até 1968, quando Diana Prince “perdeu” em temporário as super-habilidades e virou agente secreta. As histórias de 2007 da Mulher-Maravilha na Panini, escritas por Allan Heinberg, aludem à essa fase "agente secreta Diana".
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WAGNER WILLIAMS ÁVLIS – crítico literário da Academia Maceioense de Letras (reg. O.N.E. ​nº 243), professor de Língua Portuguesa, articulista, historiador do Homem-Morcego.
 
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