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27 de março de 2016

A Temática do Sagrado em Batman vs Superman – A Origem da Justiça



| Wagner Williams Ávlis*.

Este artigo não tem por finalidade fazer a crítica de Batman vs Superman, A Origem da Justiça, coisa que inúmeros sites, tubers e blogs vêm fazendo dia a dia, muito mais com juízo de valor do que com análise técnica. Em outros termos, o que se tem visto, com três exceções das dezenas que li [1], são achismos do tipo “o que eu achei do filme”, e não o que é o filme; na esteira do assunto, a chamada “crítica especializada” vem se denunciando como nada especializada, haja vista seus criticadores não entenderem de gênero heroínico, serem leigos em comics, aterem-se mais a um pretenso “realismo” que a trama deveria apresentar do que na estrutura e no desenvolvimento do enredo. A finalidade deste artigo não é julgar o filme ou dizer como ele poderia ter sido, e sim abordá-lo como ele é, partindo de sua própria estrutura, essa sim, a prática da crítica artística.
O ritmo do filme
O enredo foi corrido, e não teria como ser diferente. A pretensão do filme era maior do que sua exibição: contar sobre a formação da trindade (Superman, Batman, Mulher-Maravilha) fundadora da LJA mais a introdução sobre a própria LJA, é algo colossal, inexequível a uma exibição de duas horas e meia. Nas próprias HQs os roteiristas gastam um longo arco, subdividido em capítulos, para explicar satisfatoriamente a formação da Liga da Justiça. Ainda no campo dos comics, na Era de Prata (1955-1970), quando da estreia da Liga da Justiça, Gardner Fox e Mike Sekowsky demoraram 5 capítulos justificando a junção d’Os Maiores Heróis do Mundo (“LJA: Starro, O Conquistador”, março-abril 1960) [2]. Nos anos 1990, Dave Gibbons, Karl Kesel e Steve Rude, em Superman & Batman, Os Melhores do Mundo (1990), perduraram 3 edições para dar coesão à união dos dois super-heróis mais antigos. Em 1997 foi a vez de Mark Waid demorar-se por mais 3 edições para unir a Liga em outra série de Os Melhores do Mundo [3]. Matt Wagner em Trindade (2005), Grant Morrison em LJA (1996) consumiram em média 3 edições para justificar o surgimento da trindade e da LJA. Na animação Liga da Justiça, da Warner (2001), de Bruce Timm e Paul Dini, foram necessários 4 episódios de 45min. para explicar a existência e a geração da Liga. Dei tais exemplos para ilustrar o megaempreendimento que é explicar a união da LJA até mesmo para quadrinistas e animadores, o que dizer para cineastas? A Marvel também não foi satisfatória em justificar a formação dos Vingadores em uma película, porém foi mais eficiente do que a Warner, posto que arregimentou a iniciativa avengers nos filmes solos dalguns personagens, amenizando a mão de obra. Em Batman vs Superman considero as solturas da trama justificáveis em função do curto tempo para uma épica que requereria 2 filmes de 120min cada. Ademais, opino que um filme de gênero heroínico não precisa ser rígido no pretenso "realismo" que tanto é reivindicado hoje pelo público. O universo DC com super-heróis poderosos é aquilo mesmo do filme: choque de energia, hiperimpactos, ondas de explosão, atravessamento de concreto, vidro, asfalto, ferragens, prédios, relevo, super-velocidade estroboscópica, escala de proporção imensa, poluição visual, ruído, digladiação de videogame (do tipo Injustice, outra referência de Zack Snyder), por isso a necessidade de IMAX e CGI.
A temática do sagrado
Das 10 críticas que conferi na web, entre artigos e vídeos, apenas uma percebeu a riqueza do enredo de A Origem da Justiça, a temática do sagrado funcionando o tempo todo na trama, mas que alguns críticos ávidos por perfeição realística na ficção [o que é um paradoxo ridículo], e atentos somente à superfície da história (i.e., a ação, o visual, a sonoplastia, os enfoques, os “furos” no roteiro) não conseguiram ver, e, se viram, desprezaram. Nesse filme, diferente de O Homem de Aço, o enredo não é mais “visto de cima” – com uma compreensão ampla , não gira mais em torno da perspectiva do Homem de Aço, e sim dos terráqueos, que vêm as coisas “de baixo para cima” – com uma compreensão confusa. A perspectiva tem começo nos questionamentos de Lex Luthor sobre o que é abrigar um alien desconhecido com poder ilimitado, incógnito, superior a todo gênero humano e capaz de dizimá-lo se descontrolado. A quem responde o kryptoniano e qual a natureza (colonizadora?) de sua raça? Esses questionamentos (visto em HQs como "O Homem de Aço", "O Último Filho de Krypton", "O Legado das Estrelas", "O Que Aconteceu ao Homem de Aço?/Para o Homem Que Tem Tudo", "Grandes Astros", "Lex Luthor, Biografia Não Autorizada", “Lex Luthor, O Homem de Aço”, "Luthor" – esta lançada recente pela Eaglemoss graphic novels) foram transpostos para o filme, materializados no poder público dos EUA e na opinião popular dos cidadãos do mundo. Isso conferiu peso à trama de Snyder, pois é essa a principal motivação de Batman ser o antagonista do Superman, pois, em certo grau, comunga das mesmas preocupações de Luthor, do Capitólio e do povo. Nesse sentido considero as razões do embate entre os dois vigilantes justificáveis. A temática do sagrado reside nesse impasse, magistralmente abordada na HQ "Inimigos Públicos", de Jeph Loeb e Ed McGuinness (2004), arco onde Lex é eleito presidente dos EUA, fazendo uma belíssima correlação entre as cosmogonias gregas, a teodiceia judaico-cristã, a teoria dos antigos astronautas e o Superman. Em Batman vs Superman há várias alusões a essa correlação. Há ilustrações referenciais, a começar pela luta de um mortal vestido de morcego com um ser extraterreno, tido por imortal e divinizado (Superman). Quando em um dos diálogos entre os dois Batman fraseia algo próximo a “só sairei daqui quando eu acabar com você” nos trouxe à tona este diálogo:
–Deixa-me partir, porque a aurora se levanta.
–Não te deixarei partir, antes que me tenhas abençoado.
É o diálogo entre o patriarca dos judeus, Jacó, com um anjo, quando o primeiro lutou contra o segundo (Gn 32,26), episódio ilustrado com maestria pelo pintor francês Alexander Louis Leloir (c.1865). Notem alguma semelhança da pintura com alguns quadros de arremesso na luta entre os dois vigilantes (que, de lamentável, não tenho imagens para comparar).



O quadro na sala de Alexander Luthor – uma batalha angelical – é uma releitura de pelo menos 13 telas:
Paraíso Perdido – A Expulsão de Lúcifer, de Gustave Doré.

O Arcanjo Miguel desafia Satanás na Batalha Antes dele Ser Expulso do Céu, de Gustave Doré.
Pecados Mortais, de Farlet.


Arcanjo Miguel Debela o Anjo Decaído, Luca Giordano.


A queda dos Anjos Rebeldes, de Charles Le Brun.



Lucifera, A Queda dos Anjos Rebeldes, de Peter Rubens.
Quem é como Deus?, de Domenico Beccafumi.

Luta do Arcanjo Miguel com Satanás, de Tintoretto.

O Arcanjo Miguel e os Anjos Rebeldes, de Giuseppe Cesari.

São Miguel e a Queda dos Anjos Rebeldes, de Peter Paul Rubens.

Precipitação dos Anjos Rebeldes, de Sebastiano Ricci.

Queda da Terça Parte dos Anjos, de Frans Floris.

Miguel Luta Contra o Dragão, de Staatliche Kunsthalle.

 As telas ilustram Satã e seus demônios lutando contra o Arcanjo Miguel e seus anjos, episódio relatado no cap. 12 do livro Apocalipse, da Bíblia, uma antecipação do que virá a ser a batalha da LJA contra as potestades vilanescas da Terra, das galáxias e do além. A cena de Superman cravando a lança de kryptonita no coração de Apocalypse (e, por favor, críticos, o nome é “Apocalypse” com /y/, para diferenciar do Apocalipse, com /i/, dos X-Men) é a pintura do quadro São Miguel Arcanjo Debela Satanás, do mexicano Luis Juárez, ou ainda do bronze de Giuseppe Lomuscio 
São Miguel Arcanjo Debela Satanás, de Luis Juárez, c. 1615.

São Miguel Arcanjo Debela Satanás, escultura em bronze de  Giuseppe Lomuscio, jardins do Vaticano.

uma forma de dizer que Kal-El é um deus angélico na luta contra o mal satânico, associado, como indica o nome, a Apocalypse. A cena de Superman planando nos ares em socorro a uma população ribeirinha alagada é a "volta do Cristo em sua glória", ilustração difundida pelo adventismo.
A Vinda Gloriosa de Cristo. Pintura adventista do 7º Dia

Sobre a Mulher-Maravilha, a Diana Prince, não tem o que dizer. Ela é a deusa Ártemis, latinizada como Diana, a deidade da lua e da caça.
Essas abordagens transversais é a riqueza do roteiro, pois elas, discussões sobre o sagrado, interseccionam as discussões profanas (questões políticas, militares, éticas) no decorrer do filme. Obras de arte sendo referenciadas o tempo inteiro no interior de outra obra de arte, os quadrinhos, esse sim o clima que domina o longa-metragem. A mitologia da trindade DC foi mais do que respeitada, foi promovida, uma verdadeira teodiceia heroica, e é isso o que o filme é, é isso que temos de ver, de baixo para cima, e não de cima para baixo. Bat-abraços.
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(*) Professor de Língua Portuguesa, Literatura Brasileira, Redação, escritor da Academia Maceioense de Letras, articulista de imprensa. Nas horas vagas, é historiador do Homem-Morcego. 



[1] Blog Ozymandias Realista. Realmente se Tratava de Batman vs Superman?.
Blog Vamos Falar Sobre... Batman vs Superman: A Origem da Justiça, 2016.
http://danycostacine.blogspot.com.br/2016/03/batman-vs-superman-origem-da-justica.html
Site O Meio Bit. Batman vs Superman vs Marvel vs DC vs Internet.

[2] The Brave and the Bold nº 28, 1960, pp.07-33. In. Arquivos DC. Liga da Justiça da América vol.1. Ed. Panini, 2007, 548 págs.

[3] Publicada aqui pela ed. Abril de 1997-2000, num total de 33 edições. Houve ainda outro título de “Os Melhores do Mundo”, naquela vez publicado pela ed. Panini de 2007 a 2008, em 14 edições.

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