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17 de abril de 2016

Últimas (e Definitivas) Considerações acerca de Batman vs Superman – A Origem da Justiça

Wagner Williams Ávlis*

"Batman versus Superman é um filme que explode quarteirões, mas não cativa corações e mentes" – foi o ultimato da coluna de Veja e, certamente, é o expresso por muitos comentadores web afora. Sem almejar presunção, este artigo busca esclarecer os maiores equívocos da crítica (“especializada” ou não), mesmo consciente das imperfeições do roteiro, para fazer justiça à produção de Zack Snyder, Chris Terrio, David S. Goyer, a meu ver, propositalmente desmerecida por um povaréu viciado em uma visão lúdica, objetiva, simplista do gênero de super-heróis (a mesma visão de entretenimento que os antigos tinham sobre super-heróis na década de 1930); viciado também na ideia-fixa da fórmula Marvel de se produzir longas-metragens que entregam tudo direto, pronto e diluído, para a recepção da audiência, sem requerer dela o esforço do raciocínio, da associação, da interdisciplinaridade, do conhecimento prévio, prerrogativas dos filmes de arte. Não que isso seja negativo, só não pode ser exigido como uma regra. 
  • "É impossível Batman vencer Superman. Todo mundo sabe que o Superman se segura para não matar o Batman com apenas um golpe, ou nem precisar levantar a mão..., apenas com a visão de calor. Somente os mais fanboys da DC é que acham que é prepotência ou arrogância. Se leram quadrinhos sabem disso. O que quer que tenham tentado contar de história com Batman vs Superman, não deu certo. A sacada/saída que tira o “VERSUS” do filme e transforma em Batman & Superman é absolutamente ridícula. Batman vs Superman deveria se chamar algo como Trindade ou ficado apenas com o ‘A Origem da Justiça’ do subtítulo, sem se preocupar em criar conflitos entre os protagonistas pra depois colocá-los pra lutar juntos” [IGN Brasil:“Os 15 Melhores Easter Eggs de Batman vs Superman: A Origem da Justiça” . Judão: “Batman vs Superman não é o filme que a Trindade merece e os fãs queriam”].

          1) É necessário entender que o título do filme “Batman versus Superman” não é o evidente- superficial que ele evoca. Para a audiência viciada na estática da língua – e, por conseguinte, viciada no exterior do roteiro de um filme –, o título parece evocar somente uma luta braçal entre dois personagens, o Batman e o Superman trocando golpes. O ápice visual desse conflito é a luta braçal, é claro; porém o ápice do conflito é o conflito inteiro até à pacificação. No filme, o título “Batman versus Superman” evoca mais um conflito ideológico entre duas mentalidades e práticas de conduta polarizadas: tudo o que representa o bem e a justiça para Superman, tudo o que representa o bem e a justiça para Batman. Aqui a polarização das práticas de heroísmo de cada vigilante recai sobre a relativização (e, por favor, não no “relativismo”!) no olhar dos heróis, e, por que não?, no nosso olhar; cada qual se vê como um justo fazendo justiça, sendo cada um a própria origem da justiça. De um lado, Superman vê suas próprias ações (lutando, por exemplo, com General Zod a atravessar arranha-céus, calcinando perímetros urbanos inteiros) como um ato de heroísmo; já para Batman as ações de Superman são de vilania, são inconsequentes para com a vida civil, representam uma ameaça iminente às populações. Por outro lado, Batman vê suas próprias ações como um ato de heroísmo também (despreocupado com as chances de baixas, ferroando a fogo a pele de bandidos, impondo sua própria lei em seu vigilantismo em Gotham); entretanto, para Superman, as ações de Batman são de vilania, são de um fora da lei, de um tirano das ruas, em nada se diferenciando dos métodos de chefes criminosos nos guetos. Em suma, o que para um (e para nós, telespectadores) é visto como terrorismo, para o outro é justiça.
2) Nenhum filme inspirado em quadrinhos é o quadrinho, e isso já o desobriga de alguma “fidelidade” a uma HQ. Arte sequencial é uma coisa, arte cinemática é outra. Contudo, se formos ficar nos quadrinhos é totalmente possível Batman vencer Superman (na verdade foi possível), e isso sãos os próprios comics que atestam. O histórico de luta entre os dois ícones da DC, que compreende 3 eras quadrinísticas, de 1964 a 2015 (portanto 51 anos), mostra que houve, até aqui, 16 confrontos, sendo 8 vencidos por Batman aliando sua descomunal inteligência com suas dotadas técnicas marciais. Confira aqui esse histórico[1].
O conflito crucial entre os dois ícones da DC é sobretudo ideológico, e não apenas marcial.


         Não é ridícula, é quase inevitável. A razão já foi apresentada acima: cada super-herói reprova os métodos de ação um do outro (o que resulta em nenhum reconhecer no outro a figura do “herói”, mas de vilão); isso se agrava quando percebemos que a mão invisível de Alexander Luthor está a manipular o conflito, tendo em vista, tão-somente, criminalizar a figura idolatrada do Superman[2]. Dentre os dois, Batman é o mais determinado a livrar-se da ameaça (que o incógnito alienígena representa) em vista do perigo que é possuir poder sobre-humano. Recordemos o diálogo entre Bruce e Alfred – respectivamente nessa ordem – na primeira cena:

– Aquele desgraçado [do Superman] trouxe a guerra para nós há 2 anos. Conte os mortos: são milhares! O que vem depois? Milhões? Ele tem poder para dizimar toda a humanidade se acreditarmos que ele tem pelo menos 1% de chance de ser nosso inimigo, e isso tem de ser considerado. Precisamos destruí-lo.
– Mas ele não é nosso inimigo...
– Não hoje. 20 anos em Gotham... Sabemos que promessas não valem nada. Quantos homens bons restaram? Quantos continuaram bons?

 No decorrer da trama, o Homem de Aço, por julgar-se o único defensor de Metrópolis, interrompe uma operação do Homem-Morcego à caça de um caminhão da Lexcorp; e ambos se ameaçam. Vejamos o tom incisivo do kryptoniano:
– Da próxima vez que acenderem sua luz no céu, não apareça. O Morcego está morto! Enterre-o. Considere isso [um ato de] misericórdia.
          Adiante, Bruce Wayne recebe recortes de jornais como bilhetes em tom chantagista – associados ao seu adversário Superman – sobre sua vida pessoal, e, no outro extremo, Clark Kent fica sabendo do sequestro de sua mãe, com prazo de vida, sob condição de “trazer a cabeça do Morcego” a Lex. É certo que da parte do Último Filho de Krypton não haveria luta; ele tentou se explicar, mas o Cruzado de Capa estava na defensiva e no ataque, com a razão turvada (e isso apenas figuras como Ra’s al Ghul, Dr. Hugo Strange, Coringa, foram capazes de fazer, tal a eficácia do gênio de Lex Luthor). O embate, sob tais circunstâncias, aconteceria. Portanto, “ridículo” é desprezar essas circunstâncias, esparsas no fio da trama, em favor não de um senso crítico, mas de uma mente criticadora.


               É sério, porém não é simples assim. Superficialmente, a audiência se restringiu – mais uma vez – à palavra como ela se apresenta, “Martha”, como um nome comum aos dois heróis. Ignorou as pontas do enredo que se amarram naquele ponto: o filme começa com a lembrança da tragédia dos Wayne, com o sr. Thomas pronunciando (em tom de cuidado, proteção, lamento) o nome da esposa, “Martha”, caída, agonizante no chão. Essa última pronúncia de “Martha” se fixou na memória atormentada de Bruce, vez outra sofrendo os lapsos da tragédia – pronúncia de cuidado, proteção e lamento que também é dele. Essa ponta do tormento de Bruce será interseccionada no tormento da pronúncia de cuidado, proteção e lamento do Superman para com outra “Martha”, Superman que, com outras palavras, zela e fala com o mesmo cuidado por uma “Martha” que o sr. Thomas Wayne zelou no último suspiro, mas que a criança Bruce não pôde dar. Então, não só o nome, mas toda a carga afetiva-psicológica que ele evoca veio à tona no ser de Bruce Wayne que, no primeiro momento, supôs ser a sua mãe[3], buscando em seguida uma satisfação do oponente. Quando Lois Lane esclarece ser “Martha” a mãe, simples e humana, do kryptoniano, o Homem-Morcego toma para si a missão de não deixar outra mãe, outra Martha, sucumbir. Uma forma de compensar o que não pôde fazer por sua Martha. É um fio de ligação da trama altamente criativo, jamais pensado por quadrinista nenhum, e que não surtiria o mesmo efeito dramático, nem daria sentido à trégua, caso o nome “Martha” fosse substituído por qualquer outro nome ou, pior, substituído por um pronome como “ela”.
Um dos memes satirizando outros memes que simplificaram a trégua dos dois super-heróis. Ele diz: "Batman poupou a vida do Superman apenas porque a mãe dele se chama igual à sua mãe". E em resposta: "Eu o perdoei porque compreendi, tudo o que estava fazendo era para salvar sua mãe e porque eu entendo a dor de perder meus pais nas mãos de um vilão !". E conclui: "Não, memes! É sério que é tão difícil entenderem algo tão simples?".


              Não são claras porque quem conhece Alexander Luthor doutras datas sabe que suas maquinações não são claras; são, além de recônditas, dadas à decifração, uma das prerrogativas de seu gênio indomável. As motivações dele no filme foram bem desenvolvidas, porém de forma diferente, entrecortadas, interpelando a audiência a não ficar passiva, e sim a coparticipar da decifração do plano, como montagem de quebra-cabeças. De modo resumido, Lex, ciente da sua dotada inteligência e do seu influente poder social, não aceita que exista um ser fora da Terra (ou de outra espécie na Terra) superior a ele, de modo particular, e superior à humanidade, de modo geral. Ele teme que ser tão poderoso assim possa, por razões desconhecidas, subjugar o gênero humano, implantar um absolutismo em escala global ou, pior, nos escravizar. À medida que vê aumentar a idolatria pela figura extraterrena do Superman toma medidas preventivas, elabora um plano para humilhá-lo, desacreditá-lo, induzindo-o, com isso, a revelar todo o seu potencial devastador (e nocivo à civilização) por meio da fúria. Por isso o investimento na procura, na pesquisa, na aplicação de kryptonita, na experiência molecular com Zod, na assimilação da tecnologia de Krypton pelo acesso à nave, o interesse em refinar kryptonita para fins armamentícios, a investigação da vida pessoal do Homem de Aço, a manipulação do Homem-Morcego, a propaganda de difamação do super-herói alienígena, a incitação do embate entre os dois vigilantes. Lex não quer um além-homem vivendo entre nós, tampouco aspira a servi-lo um dia; um super-homem, de passado desconhecido e de outra galáxia, é uma superameaça para ele, para o mundo, porque, como testemunha a História, todos os ditadores foram, no início, bonzinhos heróis das massas. O trecho-chave da sua motivação é a cena do diálogo entre ele e a senadora Finch na Lexcorp:

– Meu pai nasceu na Alemanha Oriental. Ele cresceu comendo bolachas velhas. Sábado sim, sábado não, tinha de marchar em desfiles e acenar com flores para tiranos. Acho que era vontade de Deus que seu filho – eu! – terminasse com isso. [...] Uma bala de prata [a kryptonita] guardada na manga para usar contra os kryptonianos para que não chegue o dia, sra., em que seus filhos não acenem com margaridas para um camarote. [...] [Os meta-humanos] muito provavelmente esses seres excepcionais vivem entre nós; a base de nossos mitos: deuses entre homens sobre nosso planetinha azul! Não precisamos usar uma bala de prata, mas se forjarem uma não teremos de depender da bondade de monstros.

                Não fico espantado com esse tipo de juízo de valor para uma trama riquíssima em temas, com diversa multidisciplinaridade, porque sei que no Brasil, mesmo entre blogueiros e jornalistas, 75% das pessoas entre 15 e 64 anos não sabem interpretar o que leem/veem, e que a nossa educação em linguagens é a 55ª do ranking de leitura, abaixo de países como Chile, Uruguai, Romênia, Tailândia. No cinema tivemos o primeiro longa a discutir seriamente a presença do Superman na Terra, com uma gama de subtemas transversais jamais abordados, para que ao fim, concluíssem alguns, “história boba e patética”. Malicioso engano. O mesmo tema central, “bobo e patético”, já foi discutido em HQs muito antes do cinema blockbuster de super-herói, sem no entanto receber um taxativo depreciador do tipo. Quem é dcnauta percebeu, Chris Terrio e David Goyer beberam da fonte de uma saga que trouxe essa discussão política na aurora da Era Moderna dos Quadrinhos, a saga Lendas (1986, nos EUA, 1988 no Brasil), de John Ostrander, Len Wein e John Byrne. Em uma HQ mensal do Batman interligada à saga, de 1988, por exemplo, uma história chamada "Um Pássaro na Mão"[4], de uma desconhecida roteirista chamada Barbara J. Raudall (uma das mulheres pioneiras a escrever roteiros heroínicos mainstream), um personagem político de nome G. Gordon Godfrey encabeça uma campanha política nacional, com apoio do presidente Ronald Reagan, cuja qual problematiza (ou seja, aprofunda a questão, sem ficar na superfície da idolatria pelos heróis) a existência e a atuação dos super-heróis nas grandes cidades. Além de darem prejuízos patrimoniais, custos, forçarem indenizações para os governos na reconstrução de prédios, monumentos, avenidas, casas e os riscos de vida para os civis, os super-heróis – em consequência de seus combates sempre imprevisíveis – são, também, uma ameaça à segurança nacional. Essa discussão foi colocada com pioneirismo em Watchmen (1986), de Alan Moore e Dave Gibbons, também no filme Hancock (2008), com Will Smith. Confira aqui um trecho do discurso do personagem G. Gordon Godfrey, no comício televisionado no arco de Lendas:

– Até quando vamos depender dos chamados "super-heróis" para tornar nossa sociedade melhor? Por quanto tempo mais ainda vocês vão transferir sua responsabilidade social para esses vigilantes voluntários? Os super-heróis são uma afronta e um insulto aos talentos de todos nós! Não somos incapazes de dirigir o mundo! Nunca fomos! Chegou a hora de parar de olhar para os lados em busca de um auxílio. É preciso aprender a se defender sozinhos. Afinal, quem deve comandar o curso de nosso progresso? Criaturas que se escondem atrás de máscaras... ou vocês?

E aqui um diálogo entre Bruce Wayne e G. Gordon Godfrey, que muito tem a ver com a abordagem da metáfora da enchente do sr. Jonathan Kent[5] (Kevin Costner) a Clark Kent (Henry Cavill), na cena da Fortaleza da Solidão, no filme Batman vs Superman.

– [...] Entenda: o ponto central do perigo iminente são os “super-heróis”. Os chamados "heróis" estão enfraquecendo a sociedade. Eles encorajam a violência e a vilania. Note que para cada super-herói que surge, muito mais super-vilões aparecem. Sem os "heróis" não haveria inspiração para os vilões!
– Eu discordo. Foram os vilões que fizeram surgir os heróis.
– Rá! O velho enigma do ovo e da galinha. Quem veio primeiro?... Não devemos encorajar os lunáticos que querem tomar a lei em suas mãos. Os chamados "super-heróis" são, no fundo, perigosos, e devem ser cassados. Jamais deveríamos ter confiado nossa segurança a mascarados e disfarçados. Correm risco os que compactuam com o disfarce e aqueles que nada sabem, mas convivem com o disfarçante.

Em suma, a ideia é esta: o surgimento de super-vilões é diretamente proporcional ao de super-heróis, ambos imbricados num centro de mesmo lado, as faces da mesma moeda: o perigo, porque, como jogo de poder, um poder atrai o outro. É aqui que vejo a ligação com "sentir-se um herói trabalhando com todas as forças para desviar uma enchente, enquanto essa veio acertar outras pessoas". A Origem da Justiça foi o único dentre os de universos de super-heróis a assumir o desafio de fazer uma abordagem séria e filosófica sobre o Superman e, por extensão, de todos os super-seres, totalmente embasado em passagens de quadrinhos.
A discussão sobre os perigos da atuação independente de super-heróis foi trazida pela minissérie "Lendas" em 1986; considerada filha das discussões de "Watchmen" (1986), Lendas foi aclamada pela crítica. A mesma discussão se vê às voltas de Batman vs Superman – A Origem da Justiça, agora tida por "ridícula" e contra o mesmo diretor do filme Watchmen.


        Já que muitos, reivindicando para si o título de leitor de HQs ou de “fidelidade aos quadrinhos” para o cinema, dizendo ser nonsense Batman matar no filme, estou aqui para lembrar três coisas.
  1.  O Batman de Ben Affleck não matou nenhum personagem no longa; só não tinha o cuidado para evitar baixas, disparando e fraturando com violência[6] pois, como foi mostrado, Bruce Wayne, de cabelos grisalhos, já se encontrava com 20 anos de vigilância, desenganado com a justiça oficial.
  2. O Batman de Ben Affleck não é o Batman canônico das HQs; é um Batman dos infindos elseworlds da DC, isto é, dos mundos paralelos com cronologia alternativa, diferente do Batman da Terra-1, a nossa Terra. Os leitores de quadrinhos sabem do que estou falando; os posers[7] de quadrinhos não. O Batman dos elseworlds é impulsivo, "pavio curto", solilóquio, individualista, enquanto o Batman oficial é mais paciente, continente, lúcido, investigador. Quando vemos Affleck vemos o Bruce Wayne de O Cavaleiro das Trevas I, II, Batman & Juiz Dredd, Batman & Spawn, Egotrip, Terror Sagrado, Chuva Rubra, Bruma Escarlate, Colheita Maldita, etc., elseworlds com um Batman bem mais justiceiro do que detetive. Ironicamente, mesmo que não se conheça, é o estilo de Batman que a massa de não-leitores mais gosta de ver (nos games, nas animações, no cinema) e o que mais faz sucesso. O Batman desses elseworlds está disposto a matar, até mesmo em versões mais radicais, como o Batman Ninja, o Corsário, o Tirano – esses do selo “Túnel do Tempo” – e o Batman clássico da Era de Ouro. Em resposta àquela crítica pueril, alguns batfãs norte-americanos demonstraram com um mini videoclipe que, no mundo mesmo do cinema, Batman chegou a matar 45 personagens entre Batman, O Filme (1989) e O Cavaleiro das Trevas Ressurge (2012). Confira aqui.

Logo, se o Batman de Affleck matasse no filme não haveria ainda nenhum problema; ele não é o Homem-Morcego canônico das HQs e este, no cinema, segue matando.
  1.  Algumas vezes Batman perde o controle, apesar de ser coisa rara. Ele perdeu o controle em O Filho do Demônio, Asilo Arkham, Morte em Família, O Messias, Veneno, A Queda do Morcego, Silêncio, Corte das Corujas. Batman é, com Sherlock Holmes, o melhor detetive do mundo, mas não é infalível. Ele falhou algumas vezes, a exemplo de O Filho do Demônio, Morte em Família, Vitória Sombria, Corte das Corujas, Morte da Família e mais recentemente em Batman Inc. e na coletânea que Grant Morrison organizou, chamada Arquivos de Casos Inexplicáveis, os casos da Era de Prata que Batman não conseguiu explicar. Portanto não é “ridículo” que ele tenha perdido o controle da situação e se deixado levar pelos planos de Luthor.

  • ·   “Nada a ver Superman ser retratado como um deus nesse filme. Superman possui a hiperaudição e a velocidade suficientes pra salvar sua mãe antes mesmo de ser sequestrada. Ele poderia com um sopro ou um espalmar de mãos apagar a explosão da bomba. Mais um erro dos roteiristas” [Comentários diversos de internautas].

         Não é novidade que Superman seja retratado, no cinema ou nas HQs, como uma divindade. Restringindo-me ao cinema, já em Superman, O Filme (1978), Richard Donner, Howard Hawks, Jerry Siegel, Joe Shuster, Mario Puzo, David Newman, Leslie Newman, Robert Benton, Ian Fleming já traziam a discussão do sagrado na mitologia do Superman. Kal-El, o filho de El (Jor-El), cujo “pai reside no filho e o filho no pai” – palavras de Marlon Brando como Jor-El na narrativa – possui o /El/ da mesma terminação hebraica de "Deus" ("ELshaday","ELohim”,"IsraEL", “EL-ELyon", "FanuEL", "ELshamá"); uma criança enviada à Terra, sob cuidados de uma família tradicional cujos pais se mantinham com trabalho rústico; uma criança superior aos homens destinada a dar sua vida por eles, Kal-El é a figuração do Cristo moderno. Já naquele filme o entrecruzamento do sagrado era abundante, e arrisco dizer que foi pioneiro, a primeira vez que víamos desnudar a mitologia do Superman em termos teodiceicos. O Superman dos cinemas não está obrigado a ser o Superman das HQs, como já expliquei. Nesse A Origem da Justiça não temos o Superman canônico, isso porque ele matou o General Zod; a sua insígnia /s/ não é a serpente presa no diamante, símbolo da casa de El, mas um símbolo da esperança; seu uniforme é um traje real das famílias nobres de Krypton, e não o que a sra. Martha Kent costurou para ele, cujo qual não rasga fácil por causa da "aura bioelétrica" que o corpo do kryptoniano emite sob o raio do Sol amarelo; temos um Perry White negro, uma Lois Lane loira de olhos azulados, a ausência de Jimmy Olsen, um sr. Jonathan Kent morto por um tornado. Entretanto, se tomarmos o cânon do Superman nas HQs veremos que a hiperaudição não é uma habilidade onisciente; o cânon nos dá a entender que Kal-El só escuta até uma distância incógnita, porém limitada. Ele, por exemplo, não ouve todos os gritos e socorros em todos os continentes, mas os rogos próximos ao espaço geográfico em que ele ocupa. Dito isso, no filme BvS, no momento em que a sra. Kent é raptada, Clark Kent está refugiado no Ártico, na Fortaleza da Solidão, em um diálogo imaginário com seu pai adotivo. De lá, a milhares de distância do estado do Kansas, em Smallville, ele não pôde escutar a mãe, da mesma forma que ele não pôde escutar os gritos dos mexicanos presos numa fábrica em chamas em meio à festa de la Santa Muerte, enquanto ele, Clark, estava em Metrópolis no baile de Lex Luthor. Ele só soube do incêndio porque viu, casualmente, o noticiário na TV. No filme Homem de Aço (2013) Clark diz a mãe que decidiu cursar jornalismo e nele atuar porque seria "uma maneira de saber o que se passa no mundo de modo mais rápido, para poder ajudá-lo"; se ele tivesse uma hiperaudição onisciente ele não precisaria do jornalismo. Sobre a bomba com a sra. Martha Kent, o vento do sopro ou das mãos do Superman poderia reduzir a carga, mas não bloquearia o impacto da explosão, nem uma possível radiação, além das baixas, haja vista que, desde sempre, o Superman se livra de ogivas e bombas de raio amplo levando-as para fora da atmosfera terrestre ou para campos isolados.
A temática do sagrado em torno do Superman é recorrente no cinema. A ilustração da cena da morte do Homem de Aço em BvS é mais uma flagrante referência à tela de Peter Paul Rubens, "A Descida da Cruz" (1612). Nada disso, nenhuma das inserções do sagrado à mitologia do kryptoniano no filme, foi capaz de encantar os criticadores e o público (que também nada percebeu ou desconhece de arte sacra).

Espero ter ajudado a clarear o embaço que muitos pretensos críticos fizeram ao filme, prejudicando a este, e fizeram aos telespectadores, influenciando-os. Reluto em querer entender que todo esse desserviço seja apenas um caso de pandemia de má interpretação de texto ou de quebra de expectativas. Estou convencido de que há uma espontânea propaganda de hostilização contra o filme, decerto iniciada pelo discurso repetitivo do termo “Marvel”, não proferido pela Marvel empresa, mas pela Marvel fãs, simpatizantes, leitores, blogueiros, gente que, influenciada por uma ideia pronta, esperou a mesma coisa do filme que não a deu. A partir desse impulso inicial, a bola de neve vem sendo fomentada por palpiteiros, comentadores, criticadores amadores sem nenhum preparo para falar de arte, cinema, quadrinhos, leigos totais no gênero heroínico, e, pior, sem apurado senso de análise, atenção e interpretação do longa-metragem, mas que travestiram seu achismo e pura opinião subjetiva em “crítica nerd de cinema”. Constatei, nas mais de 30 críticas nacionais que li/assisti, que umas 22 eram feitas baseadas na fórmula-fixa da Marvel de se fazer filmes; ou seja, queriam ver a DC fazer seu filme no estilo da Marvel. Porém, os bons (e verdadeiros) críticos compreenderam a construção do roteiro de A Origem da Justiça, mesmo cientes das falhas que todo blockbuster está sujeito. E o mais importante: sucesso é quando a coisa ganha o gosto do público. Aos leigos com pretensões a especialistas, responsáveis por tentarem prejudicar o crossover nas telonas, deixo dois recados vindos do filme. O primeiro é o do chefe paramilitar de Nairóbi ao prender Lois Lane: “Ignorância não é o mesmo que inocência”. E, por fim, o da sra. Martha Kent a seu filho: “As pessoas odeiam aquilo que não entendem".
Espero que tenham se sentido assim ao assistir BvS, pois foi isso, como leitor e fã dos personagens, o que senti, porém, assimilando temas adultos.

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(*) Professor de Língua Portuguesa, Literatura Brasileira, Redação, escritor da Academia Maceioense de Letras, articulista de imprensa. Nas horas vagas, é historiador do Homem-Morcego. 




[1] O site de Veja diz que na primeira luta não houve vencedor, o que é um erro. O vencedor foi Batman, que deixa Superman atordoado ao chão. Para conferir, veja Superman versus Batman, Coleção Invictus nº 16. In. “O Duelo entre Super-Homen e Batman” (World’s Finest Comics #143, 1964). Roteiro de Edmond Hamilton, arte de Curt Swan. São Paulo: ed. Nova Sampa, 1994, 70 págs. Pode conferir um ótimo resumo no blog Toca do Calango:
http://calango74.blogspot.com.br/2016/04/batman-vs-superman-em-1964.html

[2] Recordemos de que Lex Luthor forja, pelo menos, duas situações para incriminar o kryptoniano: uma na África, ao mandar eliminar os sequestradores de Lois Lane para dar a entender às tribos de Nairóbi, no Quênia, que Superman foi quem os assassinou. A segunda no Capitólio, explodindo-o em meio a audiência com Superman, para dar a entender à imprensa que tudo foi obra do Homem de Aço.

[3] Como disse antes, Batman achava que Superman sabia de fatos pessoais de sua vida, como visto na cena dos bilhetes/recortes de jornal.

[4] Batman n°11 (2ª série). In. "Um Pássaro na Mão". Roteiro de Barbara J. Raudall, arte de Trevor Von Eedeu. Ed. Abril, julho 1988, pp. 08, 10, 13, 31-32. Pode-se complementar com Lendas. Grandes Clássicos DC nº 10. Roteiros de John Ostrander e Len Wein, arte de John Byrne e Karl Kesel. São Paulo: ed. Panini, 2007, 164 págs.

[5] Na cena no Polo Norte, Clark, recolhido, está em um diálogo imaginário com seu pai adotivo. Nele, o sr. Jonathan Kent narra um fato acontecido a ele para explicar, sob forma de metáfora, que intervir com poder contra algum evento de igual ou maior poder gera uma triste proporção de forças: a solução dada a um problema pode gerar um novo problema. O bem e o mal estão intimamente ligados e é neles que se funda todo jogo de poder. Eis a fala do sr. Jonathan: “(...) Eu me lembro de uma estação chuvosa... Eu tinha 12 anos. Meu pai pegou as pás, trabalhamos a noite toda, ficamos lá até eu desmaiar, mas conseguimos parar totalmente a água [que avançava em corredeira]; salvamos a fazenda. Sua avó me fez um bolo: virei um herói pra ela. Descobrimos depois que quando bloqueamos a água ela vai pra outro lugar. A fazenda Lang inteira foi afogada; enquanto eu comia o meu “bolo do herói” os cavalos deles se afogavam. Ouvia eles agonizando enquanto eu dormia”.

[6] Atestam as seguintes sequências: na cena tirada de TDK-I em que ele toma à força a mira (ainda empunhada pelo braço) de um atirador para metralhar outro atirador, a cena deixa no ar se foi para matar ou não. Como os atiradores caiam ao chão se movendo, poder-se-ia deduzir que não foram ceifados. A cena em que o batplano fuzila o prédio e as estruturas metálicas com capangas do Anatoli Knyazev, o KGBesta das HQs, não é explícita se atirou-se para matar. O batplano dispara contra os homens, é claro, porém é visível que o objetivo era interceptar, sabotar, conter e ferir. Na cena do sonho, o Batman cossaco (de Red Son, Entre a Foice e o Martelo), mesmo atacado por uma multidão de soldados com suástica do Superman e aos voos de parademônios de Apokolips, ele fratura com violência cada soldado, mesmo assim não assassina nenhum.

[7] “Poser”, termo pejorativo usado frequentemente na pop art para descrever alguém que finge ser algo que ela não é, copiando maneirismos de um segmento ou cultura, geralmente para conseguir aceitação dentro de um grupo ou por popularidade em meio a vários outros grupos, mas que não compartilha ou não entende os valores ou a filosofia daquela cultura. Fonte: Wikipédia – a enciclopédia livre.

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