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25 de maio de 2016

As Razões de Batman Ser Facilmente Adaptável ao Cinema – 1/3: Simbiose Entre HQs e Cinema

 Wagner Williams Ávlis*

Já notaram quão deu certo o casamento entre quadrinhos e cinema? A coisa é tão impressionante que os críticos, analisando o fenômeno, concluíram que se trata de uma relação mútua de simbiose: o cinema influencia os quadrinhos, os quadrinhos influenciam o cinema, de sorte que agora um se nutre do outro, e só não se confundem pelo estreito limite do suporte; um se movimenta pele via do desenho e da impressão; o outro pela via do cênico e da projeção. Vou mais além, contudo. Defendo que o estreito limite entre quadrinhos e cinema se intersecciona numa dada zona, a “zona neutra”, momento em que o cinema ainda não é cinema, o quadrinho ainda não é um quadrinho. Refiro-me à etapa da pré-produção.
Na pré-produção quadrinística a equipe criativa carece de buscar referências do cinema para compor a arte sequencial. Ângulos, enquadramentos, poses corporais, ritmo da trama, balanço de suspense/tensão, são recursos do cinema sendo empregados no trabalho com as HQs antes de elas serem HQs. Na pré-produção cinematográfica ocorre o percurso inverso. O cinema, antes de vir a ser, recorre a técnicas quadrinísticas, como a escrita do roteiro, os esboços em desenho (mais a colorização) de cenários, personagens, figurinos, cenas de ação-luta, os cortes e reviravoltas de cada tomada. Nessa etapa o quadrinho vira cinema, o cinema vira quadrinho; ou melhor, ambos se tornam uma só coisa ainda inominável. E essa coisa fica ainda mais nítida (ou menos nítida, como preferir!) quando um filme adapta um gibi ou um gibi adapta um filme, e é por esse feito que, não raro, o público leigo não separa uma mídia da outra; assiste ao Homem-Aranha do Sam Raimi crendo que aqueles eventos, trajes e trejeitos do personagem do filme  são fielmente os mesmos no quadrinho, ou, na contraparte, quem nunca assistiu à franquia de Star Wars, mas se aventura em suas HQs do universo estendido, supõe, o que lê ali, seja o mesmo conteúdo do filme.
Zona neutra: o storyboard é um ponto comum entre quadrinho e cinema, pois esse processo pré-produtivo é obrigatório a ambos. Foto dos storyboards para "Batman, O Filme" (1989), de Tim Burtom (para ver mais, acesse aqui).
A explicação científica tanto para a relação de simbiose quanto para a chamada “zona neutra” entre os quadrinhos e o cinema está na Linguística[1], e são duas:
O quadrinho e o cinema são intertextos híbridos – “Texto” é todo discurso com significado que circula na sociedade; “intertextos” são textos que nascem de outros textos e a eles fazem referência; “híbrido” é aquilo que apresenta uma mistura de diferentes elementos. O quadrinho é uma arte intertextual híbrida porque ele derivou e alia técnicas de outras artes, a Literatura, as Artes Plásticas, a Fotografia. De igual modo, o cinema derivou e alia técnicas de todas as artes juntas. Consequentemente, o quadrinho e o cinema possuem uma vocação natural a se misturarem um ao outro, ou ambos a outros.
O quadrinho e o cinema são gêneros discursivos – “Gênero (textual)” são estruturas  da composição de textos (orais ou escritos) socialmente reconhecidas. “Discursivo” tem a ver com discurso. O linguista Mikhail Bakhtin (1895-1975) observou que os gêneros são instáveis devido a se desenvolverem e serem transmitidos nas diversificadas práticas humanas, levando em conta traços linguísticos, aspectos retóricos, cognitivos, interacionais. Entretanto, entre os gêneros, há um continuum, pois existem traços estruturais de um gênero associado à função de outro. Levados por esse fenômeno do gênero textual, que ata linguagem, discurso, cultura, o quadrinho e o cinema conseguem se atar com mais facilidade do que outras artes porque possuem estruturas e funções em comum, mesmo que seu público não seja necessariamente comum.
Agora pegue toda essa relação simbiótica entre quadrinhos e cinema, acrescente a ela o que Gustav Jung (1875-1961) chamou de “inconsciente coletivo”– nosso imaginário que alia medo e fantasia, com seres conhecidos que o povoam, seres como o folclore, o terror, a violência, a aventura, morcegos, vampiros, detetives, e vislumbrará a compreensão do porquê é tão fácil adaptar Batman ao cinema, com a certeza do êxito, mesmo que o filme seja ruim.
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(*) Professor de Língua Portuguesa, Literatura Brasileira, Redação, escritor da Academia Maceioense de Letras, articulista de imprensa. Nas horas vagas, é historiador do Homem-Morcego. 



[1] Área de estudo científico da linguagem preocupada em investigar quais são os desdobramentos e nuances envolvidos na linguagem humana.

Referências Bibliográficas (das 3 partes):
Batman – Origem e Evolução do Homem-Morcego em Filmes e Seriados https://www.youtube.com/watch?v=jGtkd5BFfi8
Batman – Serial, 1943. In. TV Sinopse: http://www.tvsinopse.kinghost.net/b/batman431.htm
COTRIM. Gilberto. Fundamentos da Filosofia: História e Grandes Temas (16ª ed.). Cap. III: Consciência crítica e filosofia. São Paulo: ed. Saraiva, 2006, p.43.
InfanTV: A 1ª animação de Batman http://www.infantv.com.br/ne_batmanrobin.htm
NERY, Lincoln. Batman, A Trajetória (arq. PDF). Produção Independente, 2012, 526 págs.
SANTAELLA, Lucia. Gêneros Discursivos Híbridos na Era da Hipermídia. In. Bakhtiniana – Revista de Estudos do Discurso, vol. 9, nº 2. São Paulo: Revistas PUC, 2014, pp.206-210.

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