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30 de setembro de 2016

Animação “Piada Mortal” – Crítica Analítica [com spoilers]

 Wagner Williams Ávlis*

       Desde abril deste ano, quando as primeiras notícias sobre a produção animada da Warner Bros. para a graphic novel Piada Mortal (1988), de Alan Moore e Brian Bolland apareceram, duas coisas foram firmadas pelo diretor de animação, Sam Register, e reiteradas em todas entrevistas, todos os sneak peeks, trailers: 1) “o desenho terá classificação indicativa para maiores de 18 anos” 2) “o material manterá fidelidade à obra original”. Ambas as coisas terminaram significando uma só: o público-alvo do filme era a plateia adulta e conhecedora da graphic novel. Nem uma coisa nem outra. Na prática, o desenho animado foi para um público misto (crianças, adolescentes, adultos, leitores, não-leitores, noobs) e não foi fiel à obra em quadrinhos. Essa instabilidade na execução do filme já dava indicações de que ele não poderia ser avaliado por uma só óptica, não ser visto com o olhar de um maior de idade, tampouco com o de um menor, nem ser visto com olhos de colecionador, nem com olhos de leigos. Uma vez que a Warner Bros. deu a legalidade de comparar o desenho com a graphic novel, induzindo o juízo de valor de um para com o outro, podemos falar de uma “Piada Mortal” desenho animado por si mesmo, uma obra isolada dos quadrinhos, e de uma “Piada Mortal” comparada, uma obra em função da outra.


│▒│▒|▒│▒│ 1. Animação enquanto obra isolada

Uma das melhores animações, visceral, contundente, chocante, com uma narrativa linear, de sorte que tanto o prólogo quanto a animação se acoplam numa peça única. A Batgirl, no prólogo, recebe um protagonismo merecido, há ação, dinamismo num conto que gira num núcleo simples, curto, porém coeso, que nada mais é do que a tomada dum cartel mafioso por um jovem gângster. Ficou boa, simpática, sem panfletagem, a inserção do gay Reese, amigo bibliotecário da Barbara Gordon; boa igualmente a ideia do Batman como um mentor-protetor de Barbara (inferindo-se aí que ela estava em início de carreira); e, por fim, boa a discussão levantada por Batman sobre Barbara ser "heroína por aventura", e nesse ponto evoco trecho de uma crítica pertinente

“[Batman] diz que ela [Batgirl] só quer super-heroína por diversão, o que é a pura verdade, diga-se de passagem. Ao contrário de Bruce Wayne ou Dick Grayson, Bárbara Gordon nunca sofreu uma tragédia pessoal que a motivou a combater o crime, nunca teve seus pais assassinados nem nada parecido”.

 Coisa que nos faz pensar o que é que forja um herói. A tragédia? A realização pessoal? O final do prólogo, com Batgirl renunciando o manto de morcega, possui um perfeito encadeamento com a Piada Mortal propriamente dita, ao ser narrado: "[...] Nada disso ia importar. Uma semana depois, uma tempestade nos pegaria", com um enfoque no céu nublado, chuvoso. Uma semana depois daquele fato – conforme a animação – volta a chover em Gotham City, emendando aí a famosa abertura da graphic novel das poças d'água no chão. Essa tempestade também é a metáfora que Barbara Gordon constrói para se referir à sua paralisia, ao rapto do pai, à mudança da vida consequente. Entretanto, esse prólogo apresenta problemas composicionais, o que é um absurdo vindo de roteiristas como Brian Azzarello, Bruce Timm, Sam Liu. Isso faz questionar a noção de criatividade/inventividade do engenho autoral; afinal, ser bom naquilo que se faz está restrito a uma mídia ou bom mesmo é aquele que produz bem em qualquer mídia? O primeiro problema é o foco narrativo que, ao invés de ter sido de 3ª pessoa (narrador onisciente), é de 1ª pessoa (narrador personagem), em termos, a Batgirl, narradora do prólogo e do conto principal, na lógica da animação, uma sequência interligada de eventos, de modo que é ela mesma quem narra a cena pós-crédito, a entender que aquela cena final encerra toda a sua narrativa. É um erro crasso de literariedade; como pode Barbara Gordon relatar a seus interlocutores os eventos de Piada Mortal se ela só testemunhou  dos acontecimentos? Como pôde Brian Azzarello ter querido dar a entender que Barbara, narrando em flashback, tenha onisciência das recordações juvenis do Coringa? Barbara, seria, então, o flashback dos flashbacks do Coringa? Um estúpido cúmulo! O segundo problema é a relação forçada entre Batman e Batgirl. Simplesmente não há "química", nós não nos sentimos envolvidos, e Batman, até então mostrado como mentor-protetor, é mostrado, quebrando todas as expectativas, como um parceiro sexual apático, dessensibilizado. É evidente e aceitável que na ficção vários mestres se envolvem com suas pupilas, só que, neste caso, não houve envolvimento, houve tão-somente sexo, casual, pontual, frio. O terceiro problema do prólogo é fazer um movimento do eterno retorno ao lugar-comum – superado há algum tempo – do fetichismo ou da objetificação da super-heroína. Brian Azzarello, Bruce Timm e Sam Liu associaram “protagonismo feminino” à “romance de amor”, “super-heroína como fantasia sexual do antagonista pela protagonista”, um recurso arcaico para quem se considera moderno.

Barbara Gordon, a Batgirl, em seu prólogo nos faz refletir no que gera um herói. Ao mesmo tempo, sua narrativa é um erro de composição literária, já que testemunhou quase nada dos fatos desenrolados em "Piada Mortal".
│▒│▒|▒│▒│ 2. Animação enquanto obra comparada

Quando postas em paralelo a animação e a HQ, a fim de compará-las – já que a Warner Bros. alardeou a “fidelidade à obra original” –, a adaptação chega a ser um vandalismo contra a novela gráfica. Esse risco era iminente, dado a delicadeza que se requer para adaptar uma peça geniosa e genial como as de Alan Moore. Antes de alistar seus defeitos, quero alistar seus poucos acertos.

O traço da animação emula o traço do Brian Bolland, da mesma forma que as duas animações de O Cavaleiro das Trevas emularam o traço de Frank Miller.

Há ação e dinamismo o tempo todo, mesmo num conto curto que foi a graphic novel.

Aparece um easter egg, uma cena na batcaverna com a capa da 1ª aparição do Coringa na Batman # 1 (abril, 1940).

O close nos olhos chamuscantes do Coringa na penumbra da cena do disparo em Barbara Gordon teve efeito melhor do que a quadrícula diminuta de B. Bolland (onde o foco está por trás da cabeça da Barbara, e portanto distante).

O movimento em slow motion de Barbara alvejada, caindo no centro de vidro e logo depois em efeito jQuery (de aceleração) assegurou uma carga de tensão parecidíssima com a tensão exercida na mesma cena da HQ.

Conservação do efeito sépia nos flashbacks do Coringa.

Efeito de som abafado na dublagem onde o comediante fala sob o capacete do capuz vermelho.

Interrupção da sonoplastia e da trilha sonora ao fim da luta entre Coringa e Batman no parque de diversões, dando outra boa carga de tensão à cena e às subsequentes.

Agora os graves defeitos.
Disparidade na dublagem do Coringa. Márcio Simões foi um ultraje. Ele dubla por igual o Coringa e o crooner comediante que ainda não era o Coringa, num flagrante contraexemplo de percepção artística. Diferente fez Mark Hamill na dublagem original. Ele emprega modalizações vocálicas para encarnar o tom de um crooner sem graça, inseguro, inexperiente com a vida, sofrido com a pobreza, desenganado com o emprego, o que, definitivamente, não cabe espaço para uma voz de humor. Já para o Palhaço do Crime, Hamill modaliza a voz para o sarcástico, a acidez, o cinismo, a tagarelice intimidadora, ou seja, toda a fonologia que o crooner não tinha. Márcio Simões não entendeu que tinha de dublar 2 personagens diferentes, ele entendeu que iria dublar somente o Coringa. Acho que o Darci Pedrosa não cometeria esse erro.

Mal pretexto para Batman estar no Asilo Arkham. Nessa animação, Brian Azzarello criou um pretexto para a ida do Batman à cela do Coringa: interrogá-lo sobre um crime de anos atrás de dentistas desaparecidos, achados vivissecados com um sorriso. É verdade, a graphic novel não dá motivo para tal visita nem a explica, talvez por isso Azzarello supôs ter encontrado aí um furo, uma brecha; quis preenchê-la com esse insólito pretexto. Nem há brecha nem ele incrementou satisfatoriamente nada. Não há brechas porque A. Moore, na HQ, deixa em implícito que Batman decidiu um dia (e somente quis) tentar um diálogo humanizador entre ele e seu nêmese, uma trégua, uma tentativa de restabelecê-lo, tratá-lo, recuperá-lo da sanidade, sem os confrontos letais. Outra implicitude é que, para isso, Batman contatou o Comissário Gordon e o Asilo Arkham antecipadamente – subentendido nas quadrículas ágrafas (sem texto), onde Gordon, policiais, agentes manicomiais, até a recepcionista do asilo, já o esperavam. Não incrementou nada satisfatório porque simplesmente é um disparate de asno fazer crer que um personagem como Batman, o melhor detetive do mundo,  não conseguiu elucidar o sumiço de um congresso inteiro de dentistas por 3 anos (conforme a animação), para, ao cabo, a polícia achar primeiro e dentro da própria cidade, Gotham City.

Precauções incongruentes. Vários enquadramentos na animação são simplistas, sobretudo os que têm explícita violência, funcionando, desse modo, como um resguardo para menores de idade (e aqui de novo voltamos à problemática do público...). Um exemplo é a vivissecção do dono do parque de diversões, composta de maneira inversa. No desenho animado, o foco aparece em plano aberto com o assunto em 1º plano, sem detalhamento e mais sombreado. Na graphic novel Brian Bolland a desenha em plano fechado com o assunto em close-up detalhado e mais iluminado. Resultado: na animação as feições vivissecadas parecem um cartum infantil para encobrir o choque visual do envenenamento, dispersas na amplidão do plano aberto. Era para nossos olhos focarem o assunto no centro da imagem (i.e., o rosto do dono do parque) e sentir asco, o que não acontece; além de nada sentirmos, devido à cartunização da vivissecção, nosso olhar se dispersa, não sabendo se se centra no assunto ou se no plano de fundo. Na graphic novel, o equilíbrio é perfeito. O resultado é o choque, o horror, o asco, porque a vivissecção é detalhada, o assunto é o centro da imagem, o cenário é uma mera figuração e ainda contrasta seu matiz de cor fria, alegre, limpa, com o matiz da cor do assunto, quente, sombria, suja. Comparem aqui o resultado.



Tudo bem que os produtores do desenho procederam assim, primitivos, para resguardar as crianças (mas o desenho não era para adultos?), só que a congruência está nisto: qual a validez desse resguardo se há cenas de explícita violência, como na cena-prólogo do iate, o tiro que transpassou a cabeça do capanga do Paris, o jovem gângster?

No raciocínio dos produtores, essa cena pode ser vista pelas crianças, já a de cima não.
Diacronias erradas. A cena da batcaverna apresenta fotografias no batcomputador. Exceto a foto do Coringa concebida por Steve Englehart e Marshall Rogers na Detective Comics # 475, a de "O Peixe Sorridente", as fotografias são de tempos posteriores daquele evento. O 2º Robin Jason Todd que aparece morto (capa da "Morte em Família" dos Jim Starlin e Jim Aparo, 1989) é algo sem sentido, porque os eventos de Piada Mortal ocorrem num tempo em que Batman atua sem sidekick, precisamente na transição entre o fim da parceria com o 1º Robin Dick Grayson e a adoção de Jason Todd. A Arlequina só iria se revelar a Gotham City 6 anos depois, ao concluir a faculdade e trabalhar no Asilo Arkham. O motivo de a equipe produtiva ter optado por esse erro cronológico foi para potencializar a rivalidade entre Batman e Coringa, além de intensificar o ódio do Batman em função do óbito de Jason e agora da paralisia da Barbara, para que, ao fim, se justificasse a insinuação do Cavaleiro das Trevas ter estrangulado o bobo da corte no final do filme. Há ainda a cena do recorte de jornal do Comissário Gordon. O desenho no jornal, associado ao diálogo, quer afirmar que a fotografia da matéria mostra Batman segurando Coringa no ar em alusão à capa da Detective Comics # 27 do Bob Kane, na qual está a estreia do Homem-Morcego em 1939 segurando um gângster. A imagem da animação é improcedente, posto que um ano depois ambos se conheceriam e somente 11 anos na frente (por Bill Finger e Lew Schwartz, na Detective Comics # 168, 1951) seria revelado que Coringa era o Capuz Vermelho na fábrica de baralhos. Ou seja, por 11 anos depois da 1ª aparição do pierrô em Gotham Batman não sabia quem ele era, e no evento em que Batman se dependura com o gângster em sua estreia, ele sequer conhecia o Coringa. A novela gráfica mostra a mesma fotografia do jornal em cima e outra diferente embaixo; a de cima é, com efeito, a capa da Detective Comics # 27, a estreia do Homem-Morcego; a de baixo é uma ilustração inventada por Bolland sobre o 1º conflito das contrapartes. Na HQ, a foto de cima é fidedigna com a cronologia, faz alusão a um dos capangas da quadrilha da sociedade química Apex apanhado por Batman no ar, e é a Alfred Stryker, chefe da quadrilha [que foi derrubado num tanque ácido], que a manchete se refere: "Assassino seriamente ferido por homem-morcego. Maníaco desfigurado hospitalizado"; a de baixo é uma matéria sobre como Batman prendeu Coringa, e é a esta que Gordon se refere ao dizer: "Ei, olha só! A 1ª vez em que os 2 se encontraram... Que ano foi?".
Verborragias de pierrô. O Coringa da Warner é verborrágico, tagarela, prolixo. Isso porque acrescentaram a ele falas que não se têm no quadrinho. A cena em que alveja Barbara Gordon é o exemplo-mor desse defeito. É certo que nos quadrinhos o palhaço não é comedido nas frases, porém não é enfadonho. Ele dura 1,18min. falando em monólogo na citada cena, enquanto na HQ ele leva 7 quadrículas, numa estimativa de 40 segs. de leitura, para monologar. Alan Moore soube dosar texto com imagem, porque sabia que a cena era que tinha de falar mais ao público do que o texto; conseguiu ainda fazer do serial killer um emissor do humor inteligente e sádico com concisão; Brian Azzarello, Bruce Timm e Sam Liu estão viciados pela atual noção de humor talk-show ou do stand up comedy, ambos que, para ser engraçados, têm de ser prolixos.

Flashbacks sem encadeamentos. Brian Azzarello, Bruce Timm e Sam Liu esvaziaram o conteúdo estético de A. Moore e B. Bolland para as recordações do Coringa. Nos quadrinhos, esse recurso é encadeado com qualquer cena ou objeto no presente, mas que se correlaciona com outra cena/outro objeto do passado na memória do vilão, desencadeando o flashback. Eis os encadeamentos no conto original:

Cartaz "Mulher-Gorda" do circo
Enquadramento de Jeannie (esposa do comediante, futuro Coringa) com barrigão, grávida de 9 meses.

Enquadramento de Jeannie com as mãos estendidas a dizer "você sabe como me fazer rir"

Cartaz "Palhaço Risonho" do circo, com Coringa de mãos estendidas.

Enquadramento do Coringa sorrindo, empunhando um copo de uísque a dizer "pra provar uma coisa"

Enquadramento do crooner humorista tenso, empunhando um copo de chop a dizer "tenho que provar a mim mesmo que sou marido e pai!".

Quebra da pata da lagosta no botequim

Cena do teste de sensibilidade nas pernas de Barbara Gordon no hospital.

Fechamento da porta do trem-fantasma no parque

Enquadramento da porta fechada no botequim, por onde entram os policiais da notícia da morte de Jeannie ao humorista.

Enquadramento do humorista na mesa do botequim a se desesperar, de cabeça baixa e braços cruzados

Enquadramento do Comissário Gordon no vagão do trem-fantasma a se desesperar, de cabeça baixa e braços cruzados.

Intercalação de cenas entre a abertura de cada porta do trem-fantasma com a caçada de Batman pelo Coringa nas ruas

Por dois locais distintos, cada porta do trem-fantasma aberta abre uma cena da caçada.

Poça d'água no parque, refletindo a imagem do Coringa a se olhar

Poça d'água na fábrica de baralhos, refletindo a imagem do humorista a se olhar.

Close da gargalhada do humorista ao se perceber deformado no fosso da fábrica de baralhos

Enquadramento da gargalhada dos capangas do Coringa zombando de Gordon enjaulado e nu.

Exceto na cena do cartaz da Mulher-Gorda, os encadeamentos foram eliminados da animação, resultando num efeito aleatório dos flashbacks, sem nenhuma relação com o presente.

2 exemplos de alguns dos geniais encadeamentos de cena, responsáveis pelo movimento do flashback, entretanto, eliminados na animação.
Apelação de que Barbara Gordon foi estuprada. No desenho animado, Barbara, após atingida pelo revólver, retesa no chão de pernas abertas com a saia levemente suspensa (e aqui indagaria aos produtores, como uma aleijada pode mover e separar as pernas?); na HQ Barbara tomba de pernas juntas, fechadas, com a saia composta. Na mesma HQ, Batman procura algumas prostitutas, em quadrícula ágrafa, em busca de informações sobre o Coringa, e aquelas nada sabem dizer; já na animação, Batman inquere 3 prostitutas que dizem: "Ele [o Coringa] costumava vir pra cá direto [...]. A gente acha que o mais importante pra ele é... se divertir [transar com cada uma ou com elas ao mesmo tempo]. Acho que não nos visitou por ter achado outra garota". Por indução, essa garota é Barbara Gordon.


O abismo de diferença entre o tombamento de Barbara na animação e o dos quadrinhos. Para bom entendedor, uma imagem basta.
Cena corrida do Capuz Vermelho. Aqui acontece, de modo incoerente, o inverso da cena do tiro em Barbara Gordon; esta se demora por causa da verborragia do Coringa; na do Capuz Vermelho ela é curta, corrida. Resulta que não há os monólogos desesperados do Capuz Vermelho da HQ, não se têm os gritos amedrontados dele, não sentimos seu desespero, subtraindo toda a dramaticidade do fato. A gente simplesmente não tem pena ou dó alguma do Coringa, porque o elemento da comoção foi subtraído em benefício da correria da cena.

Batman assassinando anões. Numa das cenas do parque de diversões, em um corredor Batman é surpreendido por um alçapão contendo estacas ao fundo. Até aí esse dado é comum ao desenho e ao quadrinho. O problema é que a equipe criativa do desenho fez Batman confrontar os anões do parque aí, e, sem motivo aparente, Batman arremessa todos eles contra as estacas do alçapão. Nem careço dizer que é outro cúmulo degradante contra o caráter do detetive; além disso, esse fato não existe na graphic novel que foi lançada como elseworld, que teria até liberdade para fazer isso, mas não fez, respeitando o código de conduta do herói. Os produtores optaram por essa coisa aí para induzir o público a perceber que Batman foi ao encalço do Palhaço do Crime disposto a morrer ou a matar.

Insinuação de que Batman estrangulou Coringa no final. Desmentindo o que disse o site Omelete, segundo o qual “o filme não elucida nada e preserva a ambiguidade com que os quadros foram publicados originalmente”a equipe criativa quis sim insinuar a sensacionalista interpretação midiática (estimulada por Grant Morrison e Brian Bolland 20 anos depois da obra) de que Batman assassinou o Coringa. Na animação isso é indicado pelo seguinte:

1. A expressão facial do Cavaleiro das Trevas ao rir da piada se altera não para a de alegria, e sim para a de astúcia.
2. Os braços de Batman se estendem e se dirigem, sorrateiros, ao pescoço do pierrô.
3. Um quase inaudível ruído de fundo de atrito é emitido no instante em que o enfoque desce ao plano baixo da poça d'água, confundindo o ruído do atrito com o ruído do atrito das gotas de chuva na poça.
4. A silenciosa interrupção da gargalhada do Coringa. Batman segue gargalhando sozinho.

São coisas que não ocorrem na obra de Alan Moore e Brian Bolland. Nem vou confrontar essa piada banal com a graphic novel; basta-me apenas confrontar a animação com a própria animação. Nela, Batman repetiu várias vezes

– para que eu consiga conter o inevitável;
– não, não dessa vez. Eu não quero te machucar;
– não quero que nenhum de nós acabe matando o outro;
– nós não temos que nos matar;
– eu não quero sua morte em minhas mãos.

O desenho deixa fixo que Batman não tem intenções de eliminar Coringa. Na cena final (do suposto estrangulamento), Batman, após o silêncio de seu arqui-inimigo, permanece 15 segundos gargalhando sozinho. Então indago: isso quer dizer que, para os produtores, Batman é (ou se torna ali) um lunático psicopata? De inevitável a resposta terá de ser "sim", porquanto não há outra explicação. Somente um psicótico, um psicopata seria capaz de rir por 15 segundos enquanto vê sua vítima ser estrangulada, resistir, debater-se, agonizar, arquejar, gemer, esboçar uma feição de dor, desespero, agonia e súplica, até deixar de se movimentar, e isso tudo aos risos!

Um final onde um Batman de sorriso dissimulado, astuto, com as mãos direcionadas na altura do pescoço do Coringa, o qual é silenciado logo depois, não poderia receber  um denominador de "mantém a ambiguidade da HQ", simplesmente porque a animação não tem ambiguidade nenhuma.
│▒│▒|▒│▒│ Conclusão

Piada Mortal da Warner Bros., como obra isolada, é um show de emoções, com uma trama bem concatenada, dinâmica, simpática. Pode-se dizer que é uma das melhores do Batman feitas pela DC. Como adaptação comparada, é um showman sem talento, uma piada sem graça e de mal gosto, um desrespeito vândalo contra a fortuna crítica dos personagens, contra a gibigrafia, contra seus autores quadrinísticos, contra seus fãs. Você quem escolhe: qual é a sua Piada Mortal? Para todos os efeitos, o filme animado é exemplo cabal de que jamais uma mídia conseguirá obter para si as nuances e emoções duma história em quadrinhos; com ela se bate o martelo: são coisas absolutamente diferentes, ainda que adaptem uma a outra. É a prova também de que a percepção de "criatividade", "engenho artístico" se relativizou em nosso tempo, flagrando que ser um artista "bom" está restrito a ser bom numa determinada mídia, enquanto em outras, o mesmo "bom artista" é um fracasso.
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(*) Professor de Língua Portuguesa, Literatura Brasileira, Redação, escritor da Academia Maceioense de Letras, articulista de imprensa. Nas horas vagas, é historiador do Homem-Morcego.

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